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quinta-feira, 8 de março de 2018

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Nas ruas por mais direitos, feministas buscam ressignificar o Dia da Mulher
Neste 8 de março, mulheres de todo o país vão protestar pela igualdade de gênero. Em Brasília, ato unificado deve reunir mais de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios
á mais de um século, mulheres foram mortas incendiadas por protestarem por direitos. À época, mais precisamente em 1857, elas queriam licença-maternidade e melhores condições de trabalho. A tragédia fez com que, posteriormente, fosse instituído o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. A data é lembrada com dor, mas também reconhecimento por ter sido um dos principais passos na luta feminista pela igualdade. Contudo, com o passar do tempo, a influência do mercado ofuscou o verdadeiro significado da data, e mulheres passaram a ganhar presentes. A bonificação, no entanto, não representava autonomia, tampouco novas vagas em cargos de chefia. Eram flores e bombons para parabenizá-las, de uma certa maneira, apenas por serem mulheres. E nada mais.

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Há algum tempo, a mobilização das mulheres para que o 8 de março fosse ressignificado fez com que a data fosse levada às ruas — com intervenções, protestos e debates. O que antes era instrumento de luta, atualmente está na Consolidação das Leis do Trabalho — a licença-maternidade no Brasil foi aprovada em 1943. Um item riscado entre tantos outros da lista de demandas do movimento. Agora, no Dia Internacional da Mulher, a exigência é por mais representatividade, segurança, autonomia sob o próprio corpo, seguir a orientação sexual que lhes convir, viver da maneira como bem entenderem. Pela dignidade, pelo respeito e pelo direito de ir e vir sem medo.

A socióloga e professora da Universidade de Brasília Tânia Maria Campos de Almeida explica que o mercado se apropriou da data para fazer negócio. Assim, a descaracterização do dia veio como consequência. "A indústria retirou o poder político dessa data. É fundamental retomar a essência e entender que é um dia de luta por nossos direitos, que, por sinal, não estão garantidos", pontua. Para a especialista, é preciso uma mudança de mentalidade não só das mulheres, que devem ir à luta por seus ideais, mas principalmente dos homens. A reflexão e os atos, segundo Tânia, devem atingir a sociedade de uma maneira estrutural.

"Alguns homens precisam ter autocrítica e entender que 'precisam ser homens' de outra maneira. Entendo que eles sejam também reféns do machismo, porque são cobrados. Mas isso não os deixa isentos de identificar o lugar deles de privilégio. Não há uma reflexão crítica nisso", justifica. Tânia diz ainda que o patriarcado e o machismo surgem com novas caras. Para superá-los, são necessárias a educação, a informação e a empatia da população. "A sociedade tem características de uma sociedade moderna, mas com problemas antigos. É preciso identificar novas maneiras de fazer frente contra a opressão. Não é só uma simples questão de educação formal. É um problema de pensamento que atinge a elite, os privilegiados".

A professora atribuiu ao avanço das tecnologias e à criação das redes sociais o engajamento cada vez maior de jovens meninas na militância feminista. "As mulheres entram na militância cada vez mais novas e isso é um fenômeno recente. Os novos instrumentos de comunicação são uns dos maiores responsáveis por esse engajamento, porque unem mulheres de diferentes idades, em uma conversa horizontal e com fácil acesso às informações".

Foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Conscientização

As ativistas Clareana e Letícia, do Coletivo Nós na Rua, explicam que, apesar da militância, ainda é difícil voltar ao foco principal do 8 de março, porque "a sociedade é estruturada no machismo e no patriarcado". Para elas, as marchas simbolizam o início de um movimento de conscientização sobre os direitos das mulheres. “Vamos a manifestações principalmente para denunciar a violência e a falta de democracia que atinge diretamente as nossas vidas. Somente com muita luta conseguiremos um 2018 com uma mudança de cenário. Estar na militância é estar viva”, acrescentam.

Nesta quinta, mulheres, organizações feministas, entidades sindicais, movimentos sociais e estudantis marcham, na Esplanada dos Ministérios, pela vida das mulheres, em defesa da democracia, da igualdade de gênero e contra o racismo. O ato "8 de Março Unificadas" começa às 13h, com atividades culturais e políticas, e termina às 17h, com um protesto que seguirá até o Congresso Nacional, onde será encerrado o evento. São esperadas ao menos 10 mil participantes, de acordo com a organização do ato unificado.

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Uma das coordenadoras à frente do ato, Cleudes Pessoa, ativista feminista do Fórum de Mulheres do DF e Entorno e da Articulação de Mulheres Brasileiras, afirma ao Correio que serão discutidos, principalmente, temas que afetam diretamente a vida e a segurança das mulheres no país, como o racismo, o feminicídio e o desmonte de políticas públicas nos últimos anos. “É fundamental que as mulheres compareçam em peso, porque esse ato, essa paralisação, simboliza a celebração de nossas lutas. Foram muitas mulheres que vieram antes de nós para garantir nossa liberdade de luta pela igualdade de gênero”.

Conquistas das mulheres no Brasil
1919 Foi criada pela bióloga Bertha Lutz a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (1922). Representou o Brasil na assembleia geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos.

1932 As mulheres conquistaram o direito ao voto.

1975 Os jornais Nós Mulheres e Brasil Mulher foram criados para discutir sobre a questão da mulher.

1978 No Congresso da Mulher Metalúrgica, as mulheres intensificaram a luta por creches, direitos trabalhistas, salários iguais ao dos homens, serviços de atendimento e pela divisão do trabalho doméstico.

1985 Foi criada a primeira Delegacia da Mulher no país.

1997 Foi sancionada a cota de mulheres na política brasileira. A lei 9.504 garante a reserva de, no mínimo, 30% de mulheres candidatas durante as eleições.

2006 Sancionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei Maria da Penha foi criada para combater a violência doméstica contra a mulher no Brasil. A lei determina que que a violência doméstica — física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral — é crime.

2015 A Lei do Feminicídio colocou a morte de mulheres no rol de crimes hediondos e diminuiu a tolerância nesses casos.
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