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segunda-feira, 18 de junho de 2018

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Após sair da faculdade, recém-formados enfrentam desemprego e subemprego
Durante o ensino superior, conciliar estágio e estudos, tirar boas notas, entregar o TCC parecem desafios muito grandes. Só que, depois da formatura, aparece um obstáculo muito maior (e que se agiganta com a crise e o desemprego): ingressar no mercado de trabalho.

Ana Paula Lisboa


Com diploma, mas sem emprego

"A empregabilidade para quem tem ensino superior não diminuiu, mas os graduados estão pegando posições que não aceitariam em momentos de pleno emprego, estão indo para o subemprego" Rodrigo Capelato, diretor-executivo do SemespDurante o ensino superior, conciliar estágio e estudos, tirar boas notas, entregar o TCC parecem desafios muito grandes. Só que, depois da formatura, aparece um obstáculo muito maior (e que se agiganta com a crise e o desemprego): ingressar no mercado de trabalho.
Escolher um curso, passar no vestibular, arrumar dinheiro (para se manter durante a graduação, pagar a mensalidade ou os dois), estudar, participar de projetos de pesquisa e extensão, integrar empresa júnior, estagiar, entregar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e, depois dessa maratona toda, finalmente pegar o diploma. A partir daí, a expectativa de conseguir emprego é grande. Contudo, apenas o título de bacharelado, licenciatura ou tecnólogo não é suficiente para garantir inserção no mercado de trabalho. Quem está saindo dos bancos das faculdades tem pouca (às vezes, nenhuma) experiência na área pretendida, ficando atrás na corrida por uma vaga. Complicam ainda mais a situação a crise econômica e o aumento do desemprego. Não à toa a empregabilidade é a maior preocupação da comunidade acadêmica brasileira. A conclusão é de estudo elaborado pelo Instituto Ipsos para o Grupo Santander, ouvindo mais de 9 mil estudantes e professores em 19 países, cerca de 850 no Brasil.
Para 54% dos entrevistados, é preciso melhorar a inserção dos recém-formados no mercado de trabalho, e 63% acreditam que as universidades não conseguem munir os alunos das competências exigidas pelas empresas. Anderson Pereira, diretor da Universia (rede do Santander Universidades que reúne cerca de 1.300 instituições acadêmicas) no Brasil, acredita que os empregadores brasileiros não têm resistência a recém-formados. O que acontece é que um currículo mais cheio ainda faz diferença. “Para vagas básicas, não se espera experiência. Mas é verdade, sim, que quem tem alguma experiência sai à frente, mesmo que não seja na área da posição ofertada”, diz. “Há, porém, maturidade do empresariado brasileiro no sentido de entender que o aluno que passa por uma universidade traz retorno”, completa. Tanto é que pessoas com ensino superior chegam a ter salário 38,19% maior em comparação com nível médio, segundo pesquisa do site de empregos Catho.
O levantamento também concluiu que ter um diploma de graduação é vantagem comparativa para concorrer a posições que não exigem nível superior. E, durante a recessão, são justamente essas vagas que têm sido ocupadas por boa parte dos egressos das faculdades. A análise é de Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, entidade que congrega mantenedoras no país. “As boas posições estão mais escassas. A empregabilidade para quem tem ensino superior não diminuiu, mas os graduados estão pegando posições que não aceitariam em momentos de pleno emprego, estão indo para o subemprego”, comenta. “Você subaproveita uma mão de obra qualificada. Um engenheiro de produção que começa a trabalhar como assistente administrativo se pergunta: para que fiz a faculdade, então?” O índice de empregabilidade do primeiro trimestre do ano elaborado pela entidade demonstrou que o saldo de empregos foi positivo (em cerca de 100 mil postos de trabalho) para quem tem graduação.

A conclusão de Rodrigo Capelato é de que a situação é, sim, complicada, mas profissionais com ensino superior sofrem menos o impacto da recessão. “O desemprego é pior para quem não tem diploma, que é uma salvaguarda neste momento de crise”, aponta. Um grande problema é o desencontro entre a quantidade de vagas ofertadas em cada curso no ensino superior e o número de oportunidades no mercado de trabalho: se as instituições baseiam a oferta na simples procura dos alunos, o resultado é um grande grupo de pessoas com diploma entrando em áreas saturadas ou com pouco emprego. “As instituições de ensino privadas, responsáveis por formar a maior parte dos graduados do país, farão o que a demanda quer. Para haver mudança nesse sentido, seria necessária política de estado, para entender em que áreas o país precisa de mais gente”, sugere.
Acompanhamento
“O índice de empregabilidade dos egressos é um indicador de sucesso da universidade, pois mede a capacidade de o mercado absorver e ver valor naquela mão de obra”, acredita Anderson Pereira, da Universia. Ele defende que as instituições precisam acompanhar o estudante também após a formatura, funcionando como plataforma de apoio permanente. Walter Paulo Filho, diretor-geral das Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac), tem investido nisso. “A verdadeira educação superior vai além de conferir um diploma, tem caráter de inserção. Nós temos um setor de acompanhamento de egressos e empregabilidade, fazemos contato com todos os alunos após a formatura e continuamos em contato até ter feedback positivo”, conta.
Em baixa
A única área analisada pelo índice do Semesp que não teve saldo positivo de empregos foi a de engenharias, sinal de que os setores de infraestrutura e indústria ainda precisam se recuperar da crise. “Algumas áreas que formaram muita gente nos últimos anos estão em situação mais crítica. No caso da engenharia, além disso, há o problema da crise das empreiteiras, da indústria... As engenharias civil, de produção, mecânica e química perderam bastante em número de vagas”, afirma Rodrigo Capelato. Economista pós-graduado em tecnologia da informação (TI), ele cita ainda o curso superior em logística como outro prejudicado. Egressos de cursos de grau tecnológo também costumam ter dificuldade para se inserir no mercado, porque existe preconceito contra esse tipo de formação. “O mercado não compreende uma série de carreiras de grau tecnológico que, no mundo inteiro, estão em alta. São formações com duração um pouco menor, mas bastante foco no mercado de trabalho”, esclarece.

Em alta
Para graduados em algumas áreas, o cenário está melhor, mas não porque o setor ande bem. “A única das carreiras que conseguiu se safar em termos de volume de emprego é administração, porque é um ramo em que os recém-formados têm ido para vagas que, geralmente, não eram ocupadas por alguém com nível superior, como auxiliar de escritório ou de administração.” Fenômeno semelhante se passa no direito. “Muitos ocupam funções de auxiliar de serviços jurídicos e despachante de fórum, que poderiam ser executadas por alguém de nível médio”, afirma. Quem se forma em cursos de saúde (como medicina, enfermagem, nutrição e fisioterapia) costuma conseguir emprego com mais tranquilidade. “É uma área que sempre emprega”, explica. A psicologia também teria ganhado espaço. “Está se tornando mais popular a procura por tratamento clínico, com planos de saúde aceitando e mais pessoas querendo se entender. Na outra ponta, as empresas têm procurado psicólogos organizacionais”, informa. Assim como a saúde, a educação continua contratando, mas não necessariamente com bons salários. “Os professores, pessoal das licenciaturas, não estão sofrendo muito com o desemprego porque há menos gente querendo trabalhar com isso, já que a carreira é muito desvalorizada e o mercado é ruim.” Já a tecnologia da informação é a única área citada pelo diretor do Semesp que, de fato, está crescendo. “Os graduados nesse curso têm boa entrada no mercado, que está aquecido, principalmente por causa dos aplicativos”.
Daniel Castanho, da Ânima Cenário do pós-emprego

Além da empregabilidade, o empreendedorismo e o compromisso social são grandes demandas da comunidade universitária, segundo a pesquisa do Instituto Ipsos, em que 41% opinam que as instituições de ensino precisam estimular mais o espírito empreendedor. Essa necessidade fica clara quando se olha para o percentual de universitários que pretendem empreender no país: 7%. “A universidade é muito focada na preparação do aluno para o mercado de trabalho, mas se restringindo ao emprego formal, e não podemos ficar apenas nisso”, observa Anderson Pereira, diretor da Universia no Brasil. É necessário munir os alunos de competências do século 21 e prepará-los para um cenário de mudanças constantes e intensas, em que o empreendedorismo ganha destaque.

Pesquisa da Deloitte com mais de 10 mil pessoas de 36 países diagnosticou que as gerações Y e Z (nascidos de 1980 a 2010) se sentem despreparadas para as mudanças da Indústria 4.0. Então, as instituições de ensino precisam ajudá-las a se adaptar a isso. Daniel Castanho, presidente do grupo empresarial Ânima Educação, defende que as universidades devem se reinventar totalmente para acompanhar as revoluções, modernizando currículos, os assuntos tratados e o modo de ensinar. “Estamos falando numa era do pós-emprego. Segundo a consultoria McKinsey, nos próximos 10 anos, 40% dos empregos será freelancer. Ou seja, não dá mais para preparar o aluno só para encontrar emprego formal”, alerta. “Até pouco tempo atrás, o simples fato de ter diploma já aumentava seu salário em duas ou três vezes. Assim, as universidades, públicas e privadas, acabaram não tendo motivação para se reinventar, continuaram formando do mesmo jeito. Esse foi o problema”, aponta.
Criei meu emprego


O veterinário Guilherme abriu uma clínica depois de sair da faculdade o veterinário Guilherme Nunes Tormin dos Santos, 33, optou pelo empreendedorismo depois de se formar. O dono da clínica veterinária Mundo Zoo acredita que ser empresário é mais difícil do que atuar como empregado pela carga de responsabilidade. “Como proprietário, a gente passa por situações inesperadas. Já o funcionário tem o salário garantido no fim do mês”, compara. A parte positiva está na autonomia. “Durante a graduação, fiz dois cursos de empreendedorismo dentro da faculdade, o que ajudou”, lembra. Para Guilherme, independentemente do caminho escolhido, o sucesso depende de esforço próprio. “A partir do momento em que você é um bom profissional, seja abrindo uma empresa seja trabalhando para os outros, tem carreira e emprego garantidos. O problema é que tem muita gente despreparada”, opina.

O arquiteto Fred também empreendeu após se formar o arquiteto Fred Edson Gomes, 30 anos, está entre a pequena parcela de pessoas que saem da instituição de ensino superior pensando em empreender. Hoje, é sócio de um engenheiro civil numa empresa de obras, a Concrete. “Eu tinha facilidade de trabalhar por conta própria, de ir atrás de clientes, então preferi esse caminho.” Na hora de contratar, ele admite que existe certa resistência com recém-formados. “Quando você pega uma pessoa com experiência, a responsabilidade do gestor se alivia, porque o serviço terá andamento mais tranquilo, sem precisar ficar em cima”, compara. Ele observa, porém, que treinar estagiários para efetivá-los após a formatura é interessante, pois eles serão moldados antes disso. Só que isso requer investimento. “Passo três meses só ensinando o estagiário”, diz.
Darlene Carvalho, gerente de Atendimento Nacional do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios), observa que essa fase é um dos maiores atalhos para a empregabilidade. Tanto porque experiências como estagiário são levadas em conta durante seleções quanto porque é possível ser efetivado pelo empregador após se formar. “Hoje, há 8 milhões de estudantes no ensino superior, dos quais apenas 740 mil, o que equivale a 9%, estagiam. É um número muito baixo”, destaca. Para ela, existe uma relação entre a pequena fatia de universitários estagiando e a dificuldade de conseguir emprego entre recém-formados. Afinal, o estágio é uma porta para o mercado. “Eu mesma entrei no Nube como estagiária, há 17 anos. Hoje, estou num cargo de gerência”, conta. Para Darlene, falta abertura do mercado, principalmente das pequenas e médias empresas, para contratar profissionais em formação.

Passo a passo da inserção profissional

Confira dicas de Felipe Callbuci, diretor-geral do site de buscas de empregos Indeed no Brasil; Marcelo Haengenbeek, economista e CEO da Apponte, empresa de tecnologia detentora de um aplicativo de busca de empregos; e Darlene Carvalho, gerente de Atendimento Nacional do Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios):

Eduarda Esposito*
Ana Paula Lisboa


- Descubra quem é o avaliador, estude essa pessoa (procure no Google e no LinkedIn) e se mostre interessado. Isso te ajudará a saber como se portar na hora da entrevista.

- Chegue para fazer a entrevista no horário marcado.

- Mostre que você conhece a empresa durante a entrevista, comentando sobre ela. Para se inteirar, pesquise sobre a organização na internet, veja qual produto ou ramo em que a instituição atua.

- Use roupa adequada ao perfil da empresa. Para descobrir isso, procure se informar ou perguntar sobre que tipo de vestimenta é usada para o trabalho por lá. Piercing e tatuagem podem pegar mal dependendo da organização — para um local mais formal, seria interessante tirar e cobrir. Já para ambientes mais informais, como agências de comunicação, isso não é impeditivo.

- Esteja atualizado com as notícias, saiba o que está acontecendo, de modo geral, no Brasil e no mundo. Caso o recrutador comente algum assunto de atualidades, assim, você não fica por fora.

- Sempre seja sincero sobre suas qualificações profissionais para não ter problemas; os avaliadores, em muitos casos, sabem quando os candidatos estão mentindo. Além disso, a mentira pode ser descoberta lá na frente.

- Não tenha medo de falar de si. É positivo falar sobre si e suas características profissionais, se é focado, tem liderança, sabe trabalhar em conjunto e é comunicativo — mas demonstrando com exemplos reais, em vez de se gabando.

- Demonstre habilidades comportamentais importantes durante a entrevista, como iniciativa (falando com entusiasmo e comentando situações em que você foi proativo) e facilidade de relacionamento (contando sobre negociações em que teve sucesso), por exemplo.
- Mostre ambição e vontade de crescer dentro da empresa durante a entrevista, diga onde espera chegar. Ser ambicioso geralmente é positivo, desde que não se torne ganância. Mas isso varia com o perfil da empresa, ou seja, é preciso pesquisar o plano de carreira, saber se a firma incentiva por resultados ou tem um perfil mais neutro com salário fixo.
- Destaque seu perfil de recém-formado com um viés positivo em comparação com pessoas que estão há mais tempo no mercado, mostrando que chegará à empresa sem vícios de mercado, disposto a aprender a se encaixar no padrão da firma.
- Valorize os estágios que você fez durante a entrevista. Vale muito, pois são experiências reais. Outras vivências (como intercambio, participação em grêmio acadêmico, atlética, empresa júnior e outros projetos) também merecem ser mencionadas.
- Evite usar gírias durante a conversa. Mas procure saber sobre a empresa e identifique se o perfil dela é mais formal ou informal, tendo em vista que algumas empresas com perfil mais jovem podem aceitar esse tipo de linguagem.
- Invista no português! Muitas empresas cobram provas escritas ou redações durante as seleções. Nesse caso, erros gramaticais e falta de nexo no texto podem ser o que o deixará de fora.
- Evite gestos que mostram que você está ansioso — como balançar pernas, batucar, tamborilar com os dedos, roer as unhas, se remexer desnecessariamente na cadeira.
- Seja sempre educado durante a entrevista, dê “bom dia”, “boa noite”, diga “obrigado” e “por favor”. Isso causa boa impressão. Seja gentil, olhe nos olhos, dê aperto de mão firme, fique atento quando o entrevistador estiver falando, tudo isso causa uma boa impressão.
- Seja direto nas respostas dadas ao avaliador, não demore para dizer o que é importante. Dá para tomar mais tempo em uma resposta caso você siga uma linha lógica, sem enrolações. Lembre-se: o tempo de entrevista é curto. Não fale nem demais nem de menos.
- Conte ao entrevistador o real motivo pelo qual você se formou no seu curso, se foi por vontade própria, escolha da família, interesse financeiro... É bom dizer a razão porque mostra como o candidato pensa, a forma como tomou uma decisão muito importante na vida, se foi impulsiva, se foi analisada. É importante encaixar uma história com sentido.
- Se, mesmo com tudo isso, você não conseguir sucesso nos processos seletivos, reveja as áreas em que está buscando trabalho, se tem aptidão para trabalhar com aquilo, pois é difícil conseguir bons resultados em algo de que você não gosta.
Palavra de especialista
O valor das habilidades humanas

“Por um lado, a tecnologia traz qualidade de vida, melhora serviços em todas as áreas. Por outro lado, a máquina está fazendo serviços no lugar do homem. Isso economiza custos e diminui a necessidade por mão de obra. Não é que o mercado de trabalho seja uma dificuldade para os jovens. A dificuldade é que os jovens não estão preparados para lidar com essas mudanças. O problema está nas pessoas que estamos apresentando à sociedade. E a parte comportamental é que pesa mais. O diferencial, hoje em dia, não é conhecimento ou informação — tudo isso está na internet. A diferença está na qualidade das pessoas. A juventude precisa saber falar, ouvir, se expressar corretamente, disciplinar sentimentos, olhar nos olhos, ter esforço e resiliência. Essa parte está muito fraca. As faculdades precisam rever os currículos. Não está faltando conteúdo nas pessoas; falta o lado humano. A faculdade prepara muito mal para isso. Os problemas de comportamento geram problemas no ambiente corporativo. Perdemos a referência; hoje, os pais servem aos filhos, em vez de o contrário. Ao chegar nas empresas, os jovens têm dificuldade de lidar com hierarquia e são folgados. Quando chegam ao mercado de trabalho e percebem essa dificuldade de se empregar, entendem que não podem tudo e que não sabem tudo. Daí porque muitos recém-formados entram em desespero, podendo até entrar em comportamento de risco. Daqui a 50 anos, só 4% da população mundial estará empregada. E o que farão os outros 96%? Terão de se desenvolver nas áreas humanas, se relacionar bem. É isso que caberá às pessoas; o resto, as máquinas vão fazer. E, atualmente, essas habilidades comportamentais já fazem a diferença. Pessoas que têm poder de persuasão, sabem lidar (com pessoas, com pressão e com estresse) e liderar serão rapidamente absorvidas pelo mercado. Isso vale mais do que um diploma, que, cada vez mais, é só um certificado. (APL)
Rabino Samy Pinto, economista, especialista em educação, mestre e doutor em letras e filosofiaO valor das habilidades humanas*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

Radiografia numérica
Há 8 milhões de pessoas matriculadas no ensino superior brasileiro. Cerca de 2,9 milhões ingressam nesse nível educacional por ano e mais de 1,1 milhão concluem o curso a cada ano. Os números são do Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O desemprego entre jovens de 18 a 24 anos chega a 28% de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Radiografia numérica
Entrando no mercado - Profissionais de diferentes cursos e perfis comentam experiências
Ana Paula Lisboa Marília Lima
Diploma não é suficiente
Bárbara Mendes de Oliveira, 22 anos, psicóloga graduada pela Universidade de Brasília (UnB), moradora da Asa Norte


“Eu terminei o curso no ano passado. A colação da minha turma foi em 18 de maio, mas peguei o diploma em janeiro, por ansiedade. Desde então, procuro trabalho. Recentemente, fechei contrato (sem carteira assinada) com uma clínica em que trabalho apenas um dia por semana, das 8h às 21h40, mas continuo em busca de emprego. Para conseguir uma posição no mercado, a graduação não é suficiente: é preciso ter especialização e experiência. Vale também indicação, ser amigo de alguém importante. O seu diploma não dá conta de garantir empregabilidade porque quase todo mundo tem um hoje em dia. Fiz estágio em várias áreas, mas parece que isso não conta. Em entrevistas, perguntam: ‘Você tem experiência?’ Eu digo que estagiei. Mas aí perguntam: ‘Mas e trabalho mesmo?’ É uma hipocrisia. Preciso trabalhar para ter experiência, mas já pedem experiência na busca por emprego. São muitos mecanismos de exclusão. E existe essa cobrança para você sempre ser o melhor. O índice de depressão e suicídio na universidade está altíssimo... Você passa cinco anos sendo você mesmo, se descobrindo, tendo vivências diferentes na universidade e, quando sai, tem de se enquadrar no sistema, usar uma roupa ‘x’, um cabelo tal. O mercado de trabalho é conservador, machista. Além do mais, como você mede a competência de alguém em minutinhos de entrevista? É difícil. Durante a graduação, diziam: ‘Você é o futuro do país’. Depois que a gente se forma, vira só mais um. Arranjar emprego é uma luta. Tenho muitos amigos que estão no mesmo barco. Rola um desânimo, você vai se deprimindo, é adoecedor. Se você não tem uma boa rede de apoio familiar, adoece, fica com ansiedade. Pois pensa: ‘Puxa, estudei cinco anos ou mais e não é suficiente’. Por isso, é fundamental pedir ajuda, não passar por isso sozinho. Eu sinto que a gente sai da universidade despreparada para a vida real. Depois da formatura, há muitos gastos que você não tinha enquanto estava debaixo da asa dos seus pais. Na psicologia, você tem de pagar anuidade de R$ 500 para o conselho da área. Nesse início, parece que você mais perde do que ganha. Você sai da universidade doido por um emprego, mas não consegue. E quando consegue, não é numa posição que paga R$ 5 mil. E aí meio que você se submete a qualquer trabalho, você aceita ganhar R$ 15 do plano de saúde por sessão (como é o meu caso, quando o recomendando seria um psicólogo não ganhar menos de R$ 150 por sessão; além disso, só recebo o pagamento da consulta três meses depois, que é quando o convênio repassa o valor). E aí você trabalha, trabalha, rala, rala e ganha pouco. Quem sabe faz ao vivo, mas eu não fui treinada para esse show. A minha área, psicologia clínica, é um mercado difícil. Mas não sei se existe uma área que esteja fácil hoje em dia. Partir da faculdade para o mercado é um choque de realidade. Eu achei que, depois que você se formava, passava por um perrengue e logo entrava no mercado. Você sai da sala de aula inocente. Mas, quando vê, é um amadurecimento forçado. Se alguém te jogar um paraquedas, massa. Se não; você fica caindo. É difícil. Mas faz parte da idade, da fase. O que não dá é para desistir e jogar cinco anos de estudo fora. A minha expectativa é ser reconhecida pelos anos que estudei, mostrar o que aprendi e meu talento, dar um retorno à sociedade, contribuir para o desenvolvimento do país. Quero viver uma nova etapa, fazer compras, ter minha casa, poder viver e passar por essa etapa de maneira saudável. Mais do que ganhar dinheiro, é importante vivenciar a experiência.”
Nível superior não pesa muito
Bruna Oliveira Silva, 21 anos, assistente social pela UnB, moradora do Guará


“Eu me formei no mês passado e, há três meses, trabalho como babá com carteira assinada. Durante a graduação, a única coisa que eu fiz foi o estágio obrigatório. Fiz estágio no ensino médio em um órgão público. Eu planejo passar em concurso público porque não há muitas oportunidades na minha área na iniciativa privada em Brasília. Enquanto não ingresso no serviço público e não acho algo na minha área, procuro emprego em outras posições. Estou mandando currículo para vagas de secretária, recepcionista e vendedora, para não ficar vivendo apenas de estudar. O mercado tem preconceito com quem não tem experiência. A grande maioria das vagas exige um mínimo de experiência. Acredito que vou ter muitas dificuldades para conseguir emprego. Então, caso eu passe em um concurso, os meus problemas estarão resolvidos. Tenho vários amigos que se formaram há dois anos e não conseguiram emprego ainda. Talvez, na geração dos meus pais, ter uma graduação fazia a diferença. Atualmente, o mercado se importa com quem tem experiência. O nível superior em si não pesa muito. Claro que isso para posições que não exigem graduação determinada. Encontrar emprego está muito difícil, ainda mais bem remunerado. Isso me assusta bastante. Por tudo isso, eu aceitaria trabalhar em qualquer área.”
Preparação para vencer a concorrência
Tiago de Oliveira, 22 anos, aluno de educação física pelas Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac), morador do Gama

“Eu trabalhava com carteira assinada como garçom num café no Aeroporto de Brasília. Eu estava lá havia quase dois anos quando pedi demissão para poder fazer estágio e adquirir experiência no meu curso. Algumas pessoas ficaram preocupadas com o fato de eu largar um emprego fixo por algo temporário. Sou casado e tenho contas de casa para pagar, além da mensalidade. Atualmente, faço dois estágios: um de seis horas num ministério e outro de quatro horas num centro de cross fit. Minha rotina é bastante corrida. Das 6h às 10h, estagio no cross fit. Das 12h às 18h, fico no ministério. Depois, faço faculdade das 19h10 às 22h. No momento, estou conseguindo pagar a faculdade e as contas, mas é uma renda bem limitada. Acho que o esforço compensará depois que eu me formar. O mercado para educação física está mais promissor, a cada ano surge uma modalidade. Não faltam vagas, faltam profissionais qualificados para ocupá-las. Acredito que eu serei um profissional qualificado o suficiente para isso, pois corro atrás, faço cursos livres. Sei que o mercado é mais exigente agora, então penso um pouco na resistência com recém-formados. Mas toda oportunidade que eu tiver de estagiar e me capacitar vou aproveitar. Isso vai me deixar à frente.”
Nunca usei meu diploma
Gabriela Carvalho de Macedo, 26 anos, graduada em publicidade e ropaganda pelo Centro Universitário Iesb e técnica em secretariado pelo Instituto Universal Brasileiro (IUB), moradora de Planaltina


No início do curso de publicidade e propaganda, eu era recepcionista terceirizada num banco. Na metade do curso, pedi demissão para fazer um estágio obrigatório na área. Depois disso e a partir da conversa com colegas, percebi que a área não era para mim. Na parte teórica, eu era uma excelente aluna, já na parte prática, eu deixava a desejar. Além disso, o mercado é muito cansativo, viramos noites nas agências, e o salário não é bom. Com isso, terminei a faculdade e resolvi fazer o curso técnico em secretariado para me inserir no mercado. A minha experiência como recepcionista e a minha personalidade (sou bastante organizada e cordial) me incentivaram a continuar na área. Há um ano e oito meses, atuo como secretária num escritório de advocacia. Antes, quando resolvi buscar emprego na área, eu tive bastante dificuldade. Com o avanço da tecnologia, hoje em dia, existem muitos softwares de gestão que facilitam o trabalho. Por isso, o principal requisito para o cargo de secretária atualmente tem sido o domínio do inglês — mas eu nunca tive condições de bancar um curso de línguas. Por isso, procurei me destacar em outras habilidades, como organização e relacionamento. Procurei também fazer alguns cursos de gestão financeira, Excel e Outlook. O momento pós-faculdade é complicado. As cobranças e as responsabilidades são maiores. Acredito que ocorre muito de as empresas não ficarem satisfeitas com a capacitação que os estudantes receberam na faculdade. Aos 17 anos, durante o ensino médio, fiz meu primeiro estágio. Depois disso, sempre exerci as funções de recepcionista e secretária. Gosto do que faço e procuro sempre me manter atualizada. No momento, quero fazer cursos para melhorar ainda mais.”
O mercado me assusta
Daniele Ligabue Riccardi, 22 anos, assistente social pela UnB, moradora do Guará

“A etapa após a formação é bastante complicada, e isso vai além das nossas próprias cobranças. No momento, estou procurando emprego, estudando para concurso e pensando em fazer mestrado. Já entreguei diversos currículos, mas não tive respostas. Vejo que o mercado está bastante difícil. Acredito que existem muitas empresas que gostam de pessoas sem experiência para treiná-las do jeito que o empresário achar satisfatório. Mas muitas também já cobram experiência desde o início. A dificuldade do mercado de trabalho me assusta bastante. Fico preocupada diariamente em não conseguir alcançar meus objetivos. Se eu não achar emprego até o fim do ano, provavelmente, vou optar por outros meios. Se nada que eu planejar der certo, vou ter de trabalhar em outra área, pelo menos até eu conseguir passar em um concurso. Já trabalhei como recepcionista em uma academia por três meses. Depois de cinco anos de estudo, eu me formei em maio, acabei de pegar o diploma. Durante a graduação, fiz estágio durante um ano. Por dois anos, participei de uma pesquisa sobre gênero, diversidade e direitos humanos; da qual ainda participo como voluntária.”
Construir redibilidade durante a graduação
Izaquiel de Silva Souza, 33 anos, bacharel em direito pela Faciplac, advogado, morador de Santa Maria

“Eu era do Piauí e entrei na escola só aos 10 anos. O assassinato do meu pai me motivou a querer estudar direito. Antes, cursei recursos humanos, mas nunca atuei na área. Eu me formei no fim do ano passado e passei na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ainda no oitavo semestre. Durante a faculdade, fiz estágio, participei de empresa júnior e projeto de extensão. Os dois anos de prática jurídica num fórum me deram experiência e contato com a Justiça federal. Não enfrentei dificuldades no mercado de trabalho depois da formatura porque, antes da faculdade, aos 24 anos, passei num concurso para ser técnico em gestão de educação na Secretaria de Educação do DF. Depois, na metade do curso, passei no concurso público para agente da Polícia Civil de Goiás. Pedi vacância no primeiro concurso para poder assumir o outro. Assim que me formei, pedi exoneração do segundo porque um agente não pode advogar, e eu tinha vontade de seguir carreira nesta área. Então, voltei à secretaria. Atualmente, concilio a carreira pública com um escritório de advocacia que abri com ex-colegas de faculdade. Na minha opinião, não é que o mercado de trabalho tenha preconceito com recém-formados, a questão é que os estudantes precisam criar uma rede de contatos e construir credibilidade durante a graduação. Os recém-formados tratam cada causa como única e dão muita importância a cada cliente. Naturalmente, quem está no mercado há mais tempo tem clientela fidelizada, uma marca reconhecida. Mas isso é natural, se constrói com o tempo.”

Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa
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