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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

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Catadores ainda tentam se firmar após fechamento do lixão da Estrutural
Alguns antigos trabalhadores do local reclamam da falta de serviço, enquanto outros elogiam oportunidade em cooperativas
Desde a sua desativação, o antigo Lixão da Estrutural recebe apenas entulhos da construção civil: protegidos por uniformes, chapéus e máscaras e botas, os trabalhadores do SLU fiscalizam o local(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
De um lado, vê-se a Torre de Televisão, a Torre de TV Digital, o Palácio do Buriti. Do outro, os prédios de Águas Claras rasgando o céu do Distrito Federal. Até pouco tempo, esse ponto, rodeado por cartões-postais de Brasília, era o maior depósito de lixo a céu aberto da América Latina. O espaço, hoje repleto de terra e entulho, destoa do verde do Parque Nacional de Brasília, a pouco mais de 30 metros das margens do desativado Lixão da Estrutural.
O fechamento do espaço para recebimento de resíduos domésticos completa um ano hoje. Planejado por vários governos, o projeto saiu do papel quase 60 anos após o surgimento do lixão, a 15km do centro de Brasília. O resultado da empreitada deu um novo nome para o local, Unidade de Recebimento de Entulho (URE). Caminhões continuam a transitar pelo local, mas não mais aguardados por milhares de pessoas.
Ao contrário de antes, o conteúdo das caçambas é apenas um: sobras da construção civil. Quem trabalha na área são só motoristas de caminhões de empresas autorizadas e funcionários do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU), autarquia do GDF. Ao redor, 148 manilhas com chamas acesas no topo emergem em meio às montanhas de terra. A medida permite a evasão do metano liberado pelos que restou dos rejeitos do Lixão, que permanecem debaixo da terra.
A URE recebe até 800 caminhões de entulho por dia. Eles entram, têm o peso verificado e percorrem quilômetros de morros de terra batida rumo às áreas separadas para despejo. Protegidos por uniformes, chapéus, máscaras e botas, os trabalhadores do SLU fiscalizam o vaivém dos veículos. No entanto, a realidade de quem passava por lá era bem diferente há pouco mais de um ano.
O Lixão atraía até 3 mil em um dia. De lá, saía o sustento para centenas de famílias da Cidade Estrutural e de outras partes do DF. Pouco se entendia sobre como uma cidade com menos de 60 anos chegou a abrigar 201 hectares (o equivalente a 281 campos de futebol) de lixo. O cenário colocou Brasília entre as piores cidades do país na gestão de resíduos sólidos, segundo o Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana (Selur).
DificuldadesA montanha de rejeitos, que chegou a 55 metros de altura — os arcos da Ponte JK, por exemplo, têm 62m —, foi chamariz para as famílias que deram origem à Cidade Estrutural, às margens do Lixão, na década de 1960. Os barracos da antiga invasão surgiram em meio à falta de infraestrutura e ao cheiro que tomava conta da região. Sem qualquer garantia de salubridade, os esquecidos da nova capital arriscavam-se no ofício expostos a restos de animais, lixo hospitalar, pedaços pontiagudos de madeira e pontas afiadas das caçambas dos caminhões. Não havia banheiros nem horário fixo de trabalho.
“O dia que mais me marcou foi quando rasguei um saco de lixo e encontrei a perna de um bebê. Saí correndo e passei mais de semanas sem voltar lá”, conta Helenilde Maria da Conceição, 44 anos. Ex-catadora do aterro, a baiana natural de Bom Jesus da Lapa não conseguiu mais trabalho desde o fechamento do Lixão.
No imóvel de 21 metros quadrados que ela divide com o marido, José Rosa, além de cinco dos sete filhos do casal, não há concreto nas paredes de tijolos. As telhas de fibrocimento mal protegem das chuvas. Sob o teto, a família sobrevive com R$ 400, provenientes de auxílio assistencial, e se espreme em meio aos móveis do minúsculo espaço. Cama de casal, beliche, televisão, eletrodomésticos e eletrônicos fora de uso amontoam-se sobre o piso de terra vermelha compactada.
Para manter o lar, Helenilde trabalhava de sete a 16 horas por dia. Ganhava cerca de R$ 600 por mês. A ex-catadora deixou a Bahia em busca atendimento em Brasília durante uma gravidez de risco. Nunca mais voltou para a terra natal. “Quando cheguei, em 2002, não conseguia emprego, porque só tenho até a 4ª série. Por isso, fui para lá (o Lixão) e fiquei”, relata. Roupas, objetos da casa e comida para ela e a família saíam do depósito de resíduos.
O Carrefa — como era chamado o caminhão com rejeitos de mercados da rede Carrefour — garantia as refeições da família de Helenilde. “Eu comia o que encontrava. Era um lugar louco e divertido. Se a gente achava carne, por exemplo, assávamos e fazíamos um churrasco lá mesmo”, ri Helenilde. O ânimo da fala, porém, é apagado pela tristeza da falta de trabalho. “Estou para perder o juízo. Nunca fiquei sem emprego desde os 7 anos. Comecei como babá, na Bahia. Agora, não consigo nada aqui. Quando fecharam o Lixão, escolheram quem ia para os galpões (de separação de lixo). Como não sabia ler, só assinei um papel que nos deram. Nunca me chamaram”, lamenta.
SoluçõesResíduos putrefatos produzem o gás CH4 (metano), que prejudica a atmosfera e pode provocar explosões. No espaço onde ficava o Lixão da Estrutural, as manilhas funcionam para expulsar esse gás e o fogo ajuda a combater o cheiro desagradável. Fora isso, o lixo em decomposição produz chorume, líquido que, em contato com a água do lençol freático, pode contaminar fontes hídricas e, consequentemente, a população. Para evitar infiltrações, a Lagoa de Chorume coleta o conteúdo gerado pelo lixo enterrado e o transfere a um reservatório por meio de uma tubulação. Lá concentrado, ele se mantém isolado do solo com ajuda de uma grossa lona e não oferece riscos ao meio ambiente.
Crescimento e desigualdadeO movimento de mudança para a Estrutural se intensificou a partir da década de 1990. Em 1993, o governo fez um levantamento do número de moradores da região: 393 famílias, sendo 149 de catadores — 37% da população. Seis anos depois, o número de famílias subiu mais de 10 vezes. A fase ficou marcada pela ação truculenta da polícia na tentativa de conter o crescimento das invasões. Governantes tentaram retirar os barracos dos moradores por meio de operações que resultaram em duas mortes e dezenas de feridos. Ainda assim, os ocupantes reagiram e conseguiram se manter na área.
A Estrutural se tornou o reflexo mais nítido da unidade da Federação mais desigual do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em janeiro de 2004, a invasão de transformou na 25ª Região Administrativa do DF. Em 2015, ela se tornou a cidade com as menores rendas domiciliar e per capita do DF, segundo a Companhia de Planejamento (Codeplan). À época, 39.015 pessoas moravam na região, sendo 52% imigrantes, a maior parte (70%) oriunda de estados do Nordeste.
Saudade
Um deles é o ex-catador João Evangelista Alves, 44 anos. Ele saiu de Bacabal (BA) para tentar um emprego em Brasília. Mudou-se com a mulher e quatro dos seis filhos para a capital federal em 1999. A partir de então, o casal trabalhou no Lixão da Estrutural para garantir a sobrevivência da família. Em 11 horas de coleta, entre 20h e 7h, os dois conseguiam R$ 200 em recicláveis. As garrafas de plástico e cobre encontradas podiam render até R$ 2,5 mil por mês. “Se (o Lixão) voltasse, seria bom. Ali era riqueza. Era onde eu encontrava o meu sustento”, comenta João.
Hoje viúvo, ele mora em um barraco simples e mal-iluminado com dois dos quatro filhos que vivem em Brasília. Mal há espaço para se mover. A cama de João consiste de um colchão onde fica uma pilha de eletrônicos. Os filhos, de 19 e 20 anos, dividem um colchão a um canto. O pai dos jovens efetua consertos de aparelhos eletrônicos para tentar prover para a família. “Agora, tiro, no máximo, R$ 300 por mês”, conta, em frente ao imóvel alugado, com aproximadamente 25m².
Menos renda, mais segurançaApesar de as cooperativas existirem na época do Lixão da Estrutural, faltava organização. Lá, cada um fazia o próprio horário e não havia qualquer tipo de benefício. As condições sanitárias eram mínimas. Não existia banheiro. Os que levavam marmita para almoçar viam o almoço se estragar em poucas horas, pois também não havia geladeira. Em muitos casos, o alimento, quase sempre vencido ou estragado, era retirado dos montes de rejeitos.
Com o fechamento, os catadores precisaram se adaptar. O lixo destinado à coleta seletiva passou a ser encaminhado às Instalações de Recuperação de Resíduo (IRR), galpões para triagem do material. Trabalhar lá só era possível por meio de credenciamento no Sistema de Limpeza Urbana (SLU) e o cumprimento de uma série de exigências: todas devem pagar INSS aos funcionários e os cooperados precisam cumprir uma carga horária igual. Há seis galpões desse tipo em funcionamento. Três são alugados e três são permanentes. Eles abrigam 22 cooperativas e 1.060 catadores.
O fechamento do Lixão contrariou muitos catadores, pois, na Estrutural, cada cooperado conseguia até R$ 1,2 mil por semana. O valor caiu significativamente após a transferência para os galpões. O valor aumenta à medida que mais materiais recicláveis são separados no processo. “É uma adaptação, mas, hoje, temos coisas que não tínhamos, como INSS. Conseguimos pagar um contador e aprendemos a emitir nota. Não está 100%, mas, em comparação com o Lixão, onde sofríamos acidentes e trabalhávamos debaixo de sol, chuva e lama, está melhor”, compara Mara Maria de Jesus, presidente da cooperativa Plasferro, no P Sul.
Ela começou a trabalhar coletando lixo aos 12 anos. A tia dela, Isaína de Jesus, 76, é a cooperada mais velha da Plasferro e tem quase 50 anos de história como catadora. Criou três filhos sozinha. Ao ser questionada sobre quando pretende parar e se aposentar, entortou os lábios e resmungou: “Como vou pagar as contas? E, também, isso aqui é a minha alegria. É bom trabalhar. Você conversa e o sangue vai subindo.”
SamambaiaEstudos para encontrar uma saída para o Lixão da Estrutural surgiram nos anos 2000. A alternativa foi a criação de um aterro sanitário preparado e pensado para receber apenas resíduos que não pudessem ser reciclados ou reaproveitados. A área escolhida foi um lote de 36 hectares em Samambaia, onde especialistas indicaram que cerca de 8 milhões de toneladas de lixo poderiam permanecer aterrados por até 13 anos.
Os cálculos, no entanto, não levaram em conta o crescimento populacional nem o consequente aumento da produção de rejeitos. Com isso, a previsão inicial caiu para 10 anos. Inaugurado em 17 de janeiro de 2017, o Aterro Sanitário de Brasília recebeu, de início, cerca de 810 toneladas de lixo orgânico diariamente. Hoje, são em torno de 2,4 mil toneladas. Por mês, esse número sobe para 65 mil, mas, quando há datas festivas, como em dezembro, pode passar de 70 mil toneladas. Segundo o SLU, áreas adjacentes ao lote deverão ser incorporadas ao sistema, aumentando a vida útil do aterro para até 30 anos.
Engenheiro responsável pelo Aterro Sanitário de Brasília e ex-gerente do Lixão da Estrutural, Marcos Oliveira explica que, com a mudança, foram necessários diversos cuidados com o solo. “O depósito de lixo a céu aberto é uma área em que você chega, descarrega o resíduo e não tem nenhuma preocupação. No aterro sanitário, fazemos todo o controle”, garante.
Obstáculos a superarO fechamento do Lixão da Estrutural representou avanços em questões de meio ambiente e de saúde pública, de acordo com especialistas. Mas ainda há muito a ser feito para aprimorar o trabalho de coleta seletiva no Distrito Federal, afirmam eles. Só 22 das 31 regiões administrativas têm o serviço. E há limitações em relação aos tipos de materiais coletados, à quantidade de dias das atividades de recolhimento, a vários locais de acesso e à conscientização dos moradores alcançados pelo serviço.


Especialista em meio ambiente e professor universitário, Luiz Fernando Ferreira diz que o problema da gestão de resíduos persistirá enquanto não houver políticas públicas eficientes. “Brasília é uma cidade onde moradores produzem até 2kg de lixo por dia. A média do país é de 1kg. As pessoas que têm poder aquisitivo mais alto consomem ainda mais e nunca houve um trabalho consolidado em relação à gestão de resíduos”, observa.
Luiz Fernando acrescenta ser preciso repensar ações para controle da produção de lixo individual: “Deveríamos ter coleta seletiva em todas as cidades. Chegamos ao cúmulo de embalar uma unidade de palito de dente. Nossa sociedade tem gerado cada vez mais resíduos e não faz gestão adequada deles, mas isso entra em conflito com o consumo, que gera receita e imposto.”
Subsecretário de educação ambiental e resíduos sólidos da Secretaria de Meio Ambiente (Sema), Jair Tannus Júnior afirma que a equipe estuda o que fazer em relação aos problemas ambientais provocados pelo excesso de lixo na capital. A previsão é de que ocorram reuniões com o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) e catadores, além do aumento dos locais de triagem. “Não descartamos possibilidades para atrair a indústria. É claro que são necessários estudos, mas estamos assumindo agora e tentando nos familiarizar com realidade dos resíduos sólidos. Teremos todos os esforços para trazer um programa de educação ambiental ao DF”, afirma o subsecretário.
Saúde
No primeiro semestre do ano passado, um acordo técnico firmado entre a Secretaria de Saúde, a Escola Superior de Ciências da Saúde (Escs) e a Universidade de Brasília (UnB) permitiu um acompanhamento dos trabalhadores do lixão. O levantamento permitiu que os profissionais traçassem perfil dos catadores de material reciclável e detectassem uma série de problemas (confira quadro).
A coordenadora do programa, Carla Pintas, explicou que os resultados foram obtidos por meio da aplicação de um questionário de 240 perguntas. Os catadores ainda fizeram exames de sangue e tiveram índices como altura, peso e pressão arterial verificados. “São pessoas de todas as cooperativas, sendo que 20% delas trabalhou no lixão por mais de 16 anos. Encontramos famílias inteiras nessa situação. Hoje, acompanhamos isso nos galpões e também percebemos dificuldades. Ainda chegam muitos resíduos e isso é problema para o catador, que precisará separar isso”, explicou.
A pesquisadora lembra que o lixo não reciclável recebido por eles é capaz de causar doenças. Nesse caso, ela reforça a importância de que a população separe o lixo corretamente e higienize os materiais recicláveis que serão coletados. Além disso, quanto mais materiais selecionados, mais os catadores receberão. “Precisamos de conscientização. Eles ganham pelo que trabalham e, hoje, têm garantia de que aquilo que separaram será comprado. Se não fizermos isso, esse processo não mudará”, pontua Carla.
1,2 mil
Quantidade de catadores que trabalham nas cooperativas do DF
MEDIDAS
Confira 10 sugestões para uma gestão de resíduos adequada no DF:

» Criação de políticas públicas com foco na gestão de resíduos;
» Coleta seletiva em todas as regiões administrativas;
» Criação de campanhas de conscientização para o consumo sustentável e consciente;
» Estímulo à instalação de empresas de reciclagem;
» Incentivo ou políticas para empresas que usarem embalagens;
» Abertura de mais centros de triagem e de centros de compostagem;
» Aproveitamento dos gases gerados nos aterros como fonte de energia;
» Fiscalização para o uso de embalagens biodegradáveis pelas indústrias;
» Desenvolvimento do hábito de separação do lixo pela população;
» Abertura de áreas de triagem e transporte para a reciclagem de materiais maiores, como móveis e outros.
Fonte: Luiz Fernando Ferreira, especialista em meio ambiente
Perfil dos catadores
De 1.083 pessoas que trabalharam no Lixão da Estrutural,
» 57,6% têm entre 31 e 50 anos;
» 67% são do sexo feminino;
» 61,6% são solteiros;
» 87,6% se autodeclararam pretos ou pardos;
» 80% têm até ensino fundamental completo;
» 67% sofreram acidente no local de trabalho;
» 75,4% exercem a função há mais de seis anos;
» 20% deles atuam há mais de 16 anos na atividade de catador.
Fonte: Pesquisa Água, Ambiente e Saúde: o impacto na condição de vida dos catadores de materiais recicláveis, realizada em 2018

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