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domingo, 22 de setembro de 2019

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Ultraconservadores miram a sucessão do papa Francisco para reforçar o avanço de políticos de direita.
Ele denuncia a destruição da floresta, o capital sem ética, diz que sua instituição está aberta a todos e que os imigrantes precisam ser recebidos. Ataca populistas e nacionalistas, se abraça a líderes indígenas rejeitados por governos e pede que os marginalizados sejam colocados no centro de todas as políticas sociais.
Com um discurso por uma nova Igreja, o papa Francisco deu um novo ar ao Vaticano. O primeiro pontífice do hemisfério Sul transformou a imagem da Santa Sé, se reuniu com indígenas e lavou os pés de prisioneiros.
Mas ele também se transformou no próximo alvo da extrema-direita que, ao longo dos últimos meses, tem unido forças para debilitar o argentino.
Vaticanistas e funcionários da Santa Sé ouvidos pelo UOL não acreditam que o objetivo seja de derrubá-lo —poucos acreditam que dois papas consecutivos renunciariam. Mas a meta é a de criar as condições suficientes para que, no próximo conclave, a escolha dos cardeais seja determinada por um clima de apelo a um nome escolhido entre os conservadores.
No Vaticano, não são poucos os que confirmam que a campanha para a sucessão no trono de São Pedro já começou e tem sido liderada de uma forma explícita por grupos ultraconservadores. Para isso, eles têm se organizado em torno de políticos e também proliferando encontros e seminários.
O que chama a atenção desta vez, porém, é a inusitada aliança entre as alas descontentes do Vaticano, irritadas com o caráter progressista do papa, e políticos pelo mundo que começam a vê-lo como um obstáculo a uma agenda populista, anti-imigração e nacionalista.
A aliança, de fato, passou a ser uma realidade quando Steve Bannon, o homem que projetou Donald Trump e passou a ser consultado inclusive por aliados de Jair Bolsonaro, decidiu desembarcar em Roma.
Bannon tem declarado que seu problema não é a visão espiritual do argentino nem sua doutrina, mas sim seu posicionamento sobre geopolítica, temas sociais, de imigração, de valores e mesmo ambientais.
A ideia é de que um papa conservador, em seu lugar, legitimaria posições políticas que, hoje, são atacadas pelo Vaticano. Resultado esperado: um número maior de eleitores dispostos a dar o passo à direita populista.


O muro entre Francisco e Trump
Apenas um ano depois do início do papado de Francisco, Steve Bannon encontrou um primeiro aliado de peso: o cardeal Raymond Burke, afastado meses depois de o argentino assumir.
Influente nas alas mais conservadoras e entre aqueles que foram ignorados pelo papa, Burke passou a fazer uma dura campanha nos bastidores contra Francisco, alertando inclusive para sua incapacidade de frear o que ele chamaria de “agenda gay” dentro da Santa Sé.
Bannon e Burke descobriram que tinham muito em comum. Francisco deixou os conservadores tanto da política como do clero preocupados quando, menos de seis meses depois de assumir, optou por fazer uma viagem à ilha de Lampedusa para mostrar solidariedade aos imigrantes que desembarcavam na Europa. Algumas semanas depois, num voo entre o Rio de Janeiro e Roma, ele declarou aos jornalistas: “Quem sou eu para julgar os homossexuais?”
Se não bastasse, Francisco apresentou em 2015 a encíclica “Laudato Si” com um apelo teológico pelo clima e recorrendo à ciência para constatar que o planeta –a criação de Deus– estava ameaçado. Essa era a primeira encíclica inteiramente destinada à proteção ambiental, abrindo uma espécie de influência espiritual para o Acordo de Paris, rejeitado por alguns líderes internacionais –Trump entre eles.
Na exortação apostólica “Amoris Laetitia”, de 2016, ele insinuaria que a Igreja deveria considerar a comunhão às pessoas que, depois de um divórcio, tivessem voltado a se casar. O terremoto de suas palavras foi quase imediato nos setores mais tradicionais da Cúria.
Francisco causaria mais um mal-estar. Em 2016, enquanto Donald Trump fazia campanha para a presidência e prometia construir um muro, o argentino alfinetou que “uma pessoa que só pensa em construir muros não é um cristão”.
No ano seguinte, Trump faria sua primeira visita à Roma e resistia em ver o papa. Só aceitou o encontro depois que assessores da Casa Branca o alertaram que ele seria o primeiro chefe de estado norte-americano a ignorar o pontífice desde Roosevelt. O encontro acabou ocorrendo. Mas nem por isso as relações ficaram mais amistosas.



Minando a legitimidade
Vaticanistas constatam que, da aliança entre os ultraconservadores e os populistas, surgiria uma estratégia bem elaborada para minar a popularidade do papa e, ao mesmo tempo, preparar o terreno para um eventual futuro conclave.
Ao longo dos últimos seis anos, aponta o professor de teologia Massimo Faggioli, diversas cartas abertas foram publicadas contra o papa, cada qual questionando um ponto de sua teologia. Na maioria dos casos, elas são assinadas por nomes insignificantes dentro do mundo católico e entre os acadêmicos.
Mas para o teólogo e historiador italiano da Universidade Villanova, na Filadélfia, essas cartas cumprem outra função: a de criar uma narrativa por meios de canais católicos ou conservadores para “preparar contexto para o próximo conclave”. “Isso está muito claro”, diz Faggioli.
“Francisco não vai renunciar por conta deles. Mas eles já estão preparando um aparato midiático e um histórico de documentos para estar preparados para o conclave”, diz.
Uma dessas cartas foi de 2016. Burke e outros cardeais questionaram publicamente o julgamento do papa, abrindo uma crise profunda dentro do Vaticano. Naquele documento, pela primeira vez, insinuava-se que o papa poderia ser considerado como um “herege”.
Em abril de 2019, uma carta assinada pelo teólogo Aidan Nichols e outros 18 religiosos acusava abertamente o papa de heresia. Até a data da publicação do ataque foi pensado. O dia 30 de abril é a comemoração de Santa Catarina de Siena, responsável por um duro ataque contra o papa Gregório 11, no século 14.
“Essa foi a tentativa mais recente de acusar Francisco de não ensinar a doutrina católica e de o classificar como não sendo um verdadeiro católico”, comenta Faggioli. “Isso virou um padrão, e o que era uma acusação original apenas sobre divórcio foi se expandindo, incluindo suas ações pelo diálogo com o Islã e suas visitas aos países árabes”, explica.
O historiador destaca a ousadia desses grupos no esforço para minar a legitimidade do papa e destaca que existem leis dentro do Vaticano que permitiram que o papa abrisse processos contra essas pessoas.
“Durante os pontificados de João Paulo 2º e de Bento 16, não foram raras as vozes que discordavam dos papas. Mas nunca houve, em séculos, um grupo dentro da Igreja que acuse o papa de ser um herege”, afirma.
“O que é novo, em relação aos papas anteriores, é que seu pontificado gerou uma reação violenta por parte de alguns círculos teológicos e políticos, que expressaram desconforto e ódio pelo que está ocorrendo”, afirma.


Ex-FBI no encalço dos cardeais

Faggioli aponta que a estratégia não ficará apenas nas cartas de religiosos. Nos EUA, grupos já se organizam, inclusive financeiramente, para montar verdadeiros dossiês sobre cada um dos cardeais que participará do futuro conclave. A meta: não permitir que a próxima escolha “repita os mesmos erros” de 2013.
Um desses grupos se reuniu em outubro de 2018, nos EUA. Prometendo gastar mais de US$ 1 milhão nos próximos anos, a iniciativa pretende coletar informação sobre todos os membros da Cúria e os cardeais.
A “Better Church Governance Group” promete, até abril de 2020, apresentar o resultado de seu trabalho, que ganhou o nome de “Red Hat Report”. No fundo, todos os mais de 120 cardeais que poderão votar serão auditados. No total, mais de cem pesquisadores estão trabalhando na operação, que ainda conta com dez ex-agentes do FBI para ajudar nas investigações.
Um dos ex-agentes é Philip Scala, apresentado no site do grupo como “conselheiro especial para investigações”.
Em uma gravação em áudio do encontro de 2018 obtida pelo site católico “Crux”, o diretor da iniciativa, Jacob Imam, insistia em dizer à audiência que seu trabalho não era para atacar Francisco.
E se tivéssemos mais alguém em 2013 que pudesse ser mais proativo para proteger os jovens? Se tivéssemos o Red Hat Report, talvez não teríamos tido o papa Francisco” Jacob Imam, da Better Church Governance Group.
Dentro da Santa Sé, a frustração dos ultraconservadores americanos tem uma explicação. Por 40 anos, essa ala da Igreja nos EUA foi tratada de forma especial pelo Vaticano, interessado em vencer a Guerra Fria contra o marxismo e, depois, superar o terrorismo islamita.
Com a escolha de Bento 16, esse grupo estava convencido de que sua visão da igreja tinha “vencido”. Mas, de repente, houve uma mudança completa e inesperada com a chegada de Francisco.


Oposição ao papa na própria Itália

Fora dos EUA, as alas ultraconservadoras também foram buscar aliados. E encontraram políticos famintos por votos. Um garoto-propaganda desse grupo é Matteo Salvini, líder da extrema-direita italiana e que abraçou a causa “antiFrancisco”.
Em 2016, ele criou fortes reações ao sair às ruas com uma camiseta que dizia: “Bento é o meu papa”.
Salvini, assim como outros líderes europeus, passou a ser aconselhado por Bannon e encampou temas como a defesa do casamento apenas entre heterossexuais. O italiano também não hesitou em atacar o papa por sua postura crítica às políticas migratórias da Itália.
Com o passar do tempo, Salvini adotou um rosário em todos seus palanques, sendo criticado até mesmo pelo primeiro-ministro Giuseppe Conte por estar borrando a fronteira entre o estado e a religião. Num recente encontro entre os dois no Parlamento italiano, Salvini fez questão de beijar um rosário ao ouvir de Conte críticas sobre sua religiosidade.


Imagem e semelhança

Francisco, porém, não tem apenas rezado para que seu legado seja mantido. Fontes dentro do Vaticano confirmam ao UOL que, ao longo dos últimos anos, ele acelerou a nomeação de novos cardeais para que o próximo conclave seja, no fundo, sua própria imagem e semelhança.
A percepção do argentino é de que seu pontificado não será longo como o de João Paulo 2º e que, portanto, sua obra precisará ser continuada por outros.
Em seis anos, suas nomeações permitiram que, hoje, 53% dos cardeais participantes de um eventual conclave tenham sido nomeados por ele. Há poucas semanas, ele deu mais uma demonstração dessa pressa em reformular o colégio de cardeais e nomeou novos religiosos para os cargos.
Uma das estratégias foi a de reduzir o peso da Europa e dar mais espaço para as “periferias” do mundo. Hoje, existem 56 cardeais europeus, contra 23 da América Latina e 17 da África.
Mesmo os europeus que têm sido escolhidos são aqueles que entenderam a mensagem de Francisco. O italiano Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, é conhecido por sua vida simples, pelo fato de usar diariamente uma bicicleta, por privilegiar o diálogo e por ter tido um papel importante no processo de paz de Moçambique.
O mesmo perfil se repete com outro escolhido, o espanhol, Ayuso Guixot, um especialista em assuntos islâmicos e que trabalhou no Sudão e no Egito. Cristóbal Lòpez Romero, que passou sua vida entre o Paraguai e Bolívia, será agora o arcebispo em Rabat, capital do Marrocos, que nunca teve um cardeal.
O padre e vaticanista Thomas Reese, autor do livro “Dentro do Vaticano: política e organização da Igreja Católica”, publicou um levantamento em que constata a redução do peso da Europa e dos EUA em um eventual conclave.
Há seis anos, 62% de todos os cardeais eram dessas duas regiões do mundo. Hoje, eles representam 49%. O contingente italiano, que era de 24%, caiu para 18%.
Outra constatação de seu levantamento é de que o número de cardeais que são membros da Cúria despencou. Em 2013, no conclave que escolheu Jorge Bergoglio, 35% dos eleitores faziam parte da burocracia da Santa Sé, em Roma. Hoje, eles representam apenas 26%.
Na prática, ele transformou o órgão eleitoral em um colégio de religiosos que estão “no terreno”, espalhados pelo mundo. E não apenas daqueles que vivem a política dos corredores do Vaticano.
De acordo com Reese, os principais beneficiários das nomeações de Francisco foram os latino-americanos, asiáticos e africanos. Hoje, os cardeais da América Latina representam 18,5% do total, superando pela primeira vez os italianos.
Os africanos passaram de 10% para 14%, enquanto os asiáticos subiram sua participação de 9% para 12%.
O sul do planeta poderá representar quase 45% dos votos no próximo conclave, o que significa um colegiado menos europeu, menos branco e composto por um número maior de pessoas com as botas sujas de lama.
Segundo Reese, serão os homens escolhidos por Francisco que definirão seu sucessor e a esperança, assim, é de que a onda ultraconservadora possa ser freada.
Mas fontes dentro da Santa Sé também alertam que um dos cenários também pode ser o de um impasse entre os dois grupos, abrindo talvez uma crise inédita no Vaticano no século atual.
Na busca pelo poder, ainda que o conclave seja um momento de isolamento dos cardeais, outra constatação começa a ficar evidente. Os robôs nas redes sociais usados durante a campanha de 2016, nos EUA, impulsionando Trump, agora estão sendo transferidos para outro alvo: Francisco.

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Fonte: UOL
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