segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

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Manifestantes se reúnem diante de barricada em chamas, na capital, Teerã: resposta do regime envolveu milicianos à paisana(foto: AFP)

Onda de protestos que varre o Irã deixa 160 mortos em duas semanas
Protestos contra aumento de 200% no preço dos combustíveis se tornam convulsão social contra o regime iraniano. Repressão mata mais de 160. Ativistas veem movimento de contestação à falta de liberdades e à influência de Teerã em nações vizinhas.
Muitos tombaram, atingidos por disparos, algumas vezes à queima-roupa, enquanto fugiam. Outros foram alvos de franco-atiradores que se esgueiravam no alto de prédios, incluindo um edifício do Ministério da Justiça. Ou foram perseguidos pelos agentes à paisana da Basij, uma força paramilitar a serviço do regime. Até o fechamento desta edição, o número de manifestantes iranianos mortos pela repressão chegava a 161 desde 15 de novembro. O que começou como um protesto contra a alta de 200% no preço dos combustíveis se espalhou rapidamente para mais de 100 localidades de 10 províncias do Irã e se transformou em um grito contra o sistema teocrático dos aiatolás. Mais do que isso, um clamor por liberdade e democracia.
Para ocultar os abusos de direitos humanos e tentar abafar a mais importante convulsão social em quatro décadas, desde a Revolução Islâmica de 1979, Teerã impôs um bloqueio sem precedentes à internet. O governo do presidente Hassan Rohani anunciou a prisão de oito pessoas supostamente vinculadas à norte-americana Agência Central de Inteligência (CIA) e envolvidas nos protestos. O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, denunciou uma “conspiração muito perigosa”. “A população frustrou uma conspiração muito perigosa na qual se gastou muito dinheiro para destruir, viciar e matar gente”, afirmou, na última quarta-feira.
Para Kenneth Roth, diretor executivo da organização não governamental Human Rights Watch (HRW), as autoridades iranianas responderam aos protestos do mesmo modo que governam: “com flagrante desrespeito aos direitos humanos”. Ele lembra que, além do assassinato de mais de 160 manifestantes, os grupos de direitos humanos estimam que as forças de segurança prenderam 7 mil pessoas. “Para prevenir as comunicações entre os manifestantes e as denúncias sobre a repressão, as autoridades fecharam a internet e ainda não a restauraram por completo. O acesso por celulares é particularmente escasso”, afirmou ao Correio.
Cofundador da organização não governamental Middle East Human Rights Center (Mehr) e hoje exilado em Toronto, o iraniano Siavosh Bahman explicou à reportagem que “a má administração e a corrupção, tão desenfreadas na República Islâmica, são as principais raízes” da insatisfação social. “Apesar de ter um valor patrimonial bastante alto devido à existência de muitos recursos naturais, o regime transfere muito de sua riqueza para Síria, Palestina, Iêmen e Líbano, a fim de apoiar grupos terroristas”, lembrou.
Violações
Durante os protestos, a multidão entoava “Nosso dinheiro está perdido, desperdiçado na Palestina” e “Nem Gaza, nem Líbano, nossa vida pelo Irã”. “Isso indica uma raiva generalizada em relação a um regime que gasta bilhões de dólares em guerras regionais por procuração, em vez de investir o montante na economia nacional. Além desses fatores, o meu povo tem sofrido violações sistemáticas de direitos humanos por 40 anos. Não ter acesso a direitos humanos básicos, como liberdades de expressão, de associação, de reunião e de religião é algo que coloca as pessoas sob mais pressão e as atrai às ruas”, comentou Bahman.
O desafio ao aiatolá Ali Khamenei ficou explícito nos cânticos ensaiados pelos manifestantes em várias cidades: “Que erro cometemos ao fazer parte da revolução” e “Tragam de volta o xá”. Segundo Bahman, os iranianos reconhecem que a eleição de clérigos para dirigirem o país e uma legislação baseada na sharia (lei islâmica) foram um erro ocorrido durante a revolução de 1979.
Por várias vezes, Salman Sima esteve preso e foi torturado por seu ativismo em prol dos direitos humanos. Em duas ocasiões, o iraniano nascido em Zanjan (300km a oeste de Teerã) fez greve de fome para tentar sensibilizar as autoridades de seu país. “O povo iraniano, em especial aqueles nascidos depois de 1980, está farto das ineficiências e da corrupção da teocracia anti-Ocidente. Ainda que os protestos tenham se iniciado com a alta dos combustíveis como uma justificativa, a sociedade iraniana tem se mostrado como uma panela de pressão prestes a explodir”, comparou, em entrevista pela internet. “A inaptidão do regime, associada às guerras caras em pelo menos três países, e sua insistência em adquirir armas nucleares, apesar das sanções, empurraram a maioria dos cidadãos para abaixo da linha de probreza extrema. A falta de liberdade e o fato de testemunharem a revolta no Iraque também motivaram os iranianos a se manifestarem.”
Mordaça digitalEm 15 de novembro, enquanto transcorriam os protestos, o acesso à maior rede de computadores do mundo foi interrompido no Irã. De acordo com a organização não governamental Netblocks, que trabalha em prol dos direitos digitais, no dia 16, ocorreu um blecaute total da internet no país. Por vários dias, a conectividade no Irã foi de apenas 5% e chegou a 64% uma semana depois, para usuários dotados de sistema wi-fi. Muitas das redes sociais permaneceram bloqueadas, em alinhamento com a política iraniana, ainda que o acesso seja possível usando o software VPN. “Com mais de 300 redes interrompidas, o desligamento da internet no Irã é um dos mais complexos que já rastreamos”, afirmou Alp Toker, fundador e diretor da Netblocks.
Pontos de vista
Desejo de reforma
(por Siavosh Bahman)
“Desde janeiro do ano passado, todos os protestos ocorreram em rejeição à totalidade da República Islâmica. Os manifestantes entoaram frases, como ‘40 anos de ditadura são suficientes’ ou ‘Morte ao ditador’. Isso mostra como eles estão frustrados com o regime e desejam qualquer ‘reforma’. Os iranianos querem se distanciar do atual sistema teocrático para um secular e restabelecer a liberdade e a forte economia que tinham antes da revolução de 1979, durante a monarquia do xá Reza Pahlavi.”, Cofundador da organização não governamental Middle East Human Rights Center (Mehr) e morador de Toronto.
Prontos para a democracia
(por Salman Sima)“Na era da internet e da globalização, os jovens bem educados da comunidade iraniana têm se mostrado prontos para a democracia há bastante tempo. O que os impede de fruir da democracia são os petrodólares, que alimentam a máquina de repressão. Com as recentes sanções e a pressão internacional, e também ante a resistência enfrentada em todo o Oriente Médio, os iranianos encontraram um novo espaço para expressar os seus desejos.”, Ex-prisioneiro político iraniano, fez greve de fome por duas vezes. Nascido em Zanjan, 300km a oeste de Teerã, é especialista em Irã.
Parlamento aprova renúncia em Bagda
Vizinho do Irã, o Iraque também enfrenta violentos protestos, que deixaram pelo menos 420 mortos. Em uma manobra para pacificar o país, o Parlamento aceitou, neste domingo (2/12), a renúncia do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi e anunciou que pedirá ao presidente iraquiano, Barham Salih, que escolha um novo premiê. Morador de Diwaniya, a cerca de 170km de Bagdá, o estudante Aynas Abes Abdel Kadhim, 20 anos, acredita que a mudança de governo não será suficiente para conter as manifestações. “O sistema político iraquiano precisa se transformar completamente”, explicou ao Correio. “Uma de nossas principais demandas é distanciar o presidencialismo dos partidos. Todos no Iraque sabem que quem controla o Estado e escolhe o primeiro-ministro é Qasem Solaimani (general do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana). Os partidos políticos do Iraque são todos apoiados pelo Irã. As milícias de Teerã estão por trás dos assassinatos de manifestantes”, acrescentou.
Kadhim disse ter visto “muitos casos de execuções deliberadas nas ruas”. “As autoridades iraquianas têm anunciado a matança de ativistas pacíficos por parte de um terceiro ator, o qual pertence a um país estrangeiro”, comentou. “Para eliminar os manifestantes, a internet foi cortada no Iraque e no Irã. Um dos métodos de repressão adotados pelas milícias é o sequestro de civis e de opositores.” Em Karbala, Mohamed Saad Jawad Nasrawi, 23, afirmou à reportagem que os protestos em seu país visam resgatar a nacionalidade e refundar a Constituição. “Não basta o premiê renunciar. É preciso remover todos os partidos existentes, alterar a Carta Magna e convocar novas eleições”, defendeu. “Todos os partidos são corruptos e vivem sob liderança do Estado iraniano.”
A decisão de Abdel Mahdi de entregar o cargo ocorreu depois da exigência feita pelo aiatolá Ali Al-Sistani, a maior autoridade xiita do Iraque. Apesar do desmoronamento do governo, os protestos prosseguiram neste domingo (2/12) com caráter de velórios. Pela primeira vez desde o começo das manifestações, dois meses atrás, um tribunal iraquiano condenou à morte um policial acusado de ter matado manifestantes. A Corte penal de Kut determinou que um comandante da polícia seja enforcado.
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