segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

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(foto: AFP / Daniel LEAL-OLIVAS)

Sem resolver Brexit, Reino Unido se prepara para mais uma eleição
Conservadores e trabalhistas disputam eleição antecipada, no próximo dia 12, contra um inimigo comum: o dilema de como conduzir o rompimento com a União Europeia, que paralisa o país há três anos.
Os líderes dos dois partidos que se alternam no poder no Reino Unido desde o pós-Segunda Guerra, em meados do século 20, têm pela frente mais 10 dias de uma campanha breve e quase monotemática para a eleição antecipada do próximo dia 12. E cada um enfrenta um desafio próprio de afirmação política. O primeiro-ministro Boris Johnson chegou à chefia do governo como vencedor de uma disputa interna no Partido Conservador, e busca o aval das urnas para o seu programa, cujo cerne é concluir a saída do país da União Europeia (UE). Jeremy Corbyn conquistou a liderança do Partido Trabalhista com a bandeira do retorno às raízes sindicais, mais próximas do marxismo, mas segue como um fator de divisão nas fileiras e no eleitorado — e, como o adversário, tem no Brexit o enigma a ser decifrado.
Corbyn não economizou no vocabulário “classista” ao lançar formalmente seu programa de governo, que apresentou como “radical” e “transformador”, expressão de um partido que “não pertence aos banqueiros, aos bilionários e ao establishment”. “É ao povo que pertence o Partido Trabalhista”, proclamou. “Nosso manifesto contém muitas medidas populares que a classe dominante vem bloqueando há uma geração”, completou, em referência à agenda liberalizante e privatista implantada por seguidos governos conservadores, desde Margaret Thatcher, nos anos 1980 — e intocadas pelo “novo trabalhismo” de Tony Blair, na virada do século.
Sob a batuta de Corbyn, a principal força de oposição vai às urnas com a proposta de recolocar sob controle estatal setores como as ferrovias, o correio e os serviços de energia e água. Promete injetar 83 bilhões de libras aos gastos anuais do governo até 2024 — o fim do próximo mandato de cinco anos — à custa de aumentar os impostos sobre os rendimentos mais elevados e rever benefícios fiscais concedidos às empresas. Entre outros empreendimentos de sentido “popular”, prevê a destinação de 75 bilhões de libras para construir anualmente 150 mil moradias sociais, de baixo custo.
Fantasma
À parte o rompimento frontal com a política econômica que prevalece nas últimas quatro décadas, o trabalhismo neorradical vai em busca de votos assombrado pelo fantasma do Brexit, e por uma desvantagem na casa dos 10 pontos percentuais nas pesquisas. Derrotado no referendo de 2016, quando defendeu a permanência na UE — assim como os conservadores — o partido de Corbyn tenta decifrar o enigma do Brexit. O programa apresentado na última quarta-feira promete completar o processo em seis meses, depois de negociar com Bruxelas um novo acordo de “divórcio” e submetê-lo a referendo vinculante.
De maneira semelhante a Boris Johnson, o líder da oposição se vê entre dois fogos na questão que engessa a política britânica há três anos. O referendo de 2016 deu vitória ao Brexit em regiões industriais que foram redutos trabalhistas por décadas. A eleição de maio passado para o Parlamento Europeu reafirmou essa tendência e apontou outra, igualmente preocupante: o partido perde terreno também entre o eleitorado pró-europeu, atraído pela posição claramente anti-Brexit de legendas como os liberal-democratas e os ecologistas.
A situação, porém, não é muito mais fácil e tranquila para o primeiro-ministro. Boris Johnson assumiu o comando do partido e do governo, em julho, após o fracasso da antecessora, Theresa May, na condução do Brexit. Venceu a disputa interna prometendo concluir a separação “por bem ou por mal”, mas acabou forçado a engolir novo adiamento, desta vez, para 31 de janeiro. Agora, se apresenta como “o único capaz de acabar com essa paralisia” e limpar o caminho para que o país “siga adiante para enfrentar os seus problemas, que não são poucos”. Conta, para isso, com um acordo tácito oferecido pelo Partido do Brexit, o grande vencedor das eleições europeias no Reino Unido: seu líder, Nigel Farrage, acena com a proposta de não apresentar candidatos para disputar cadeiras atualmente ocupadas por conservadores, uma ajuda providencial no sistema eleitoral britânico, baseado 100% no voto distrital.
É em nome de torpedear esse modelo, desenhado “para perpetuar a tirania dos dois grandes partidos”, que um recém-egresso do Partido Conservador declarou o voto nos liberal-democratas. Nick Boles, que deixou a bancada governista por discordar do Brexit e da política de Johnson para conduzi-lo, acusa o premiê de “transformar o partido de Disraeli e Churchill em veículo de um nacionalismo inglês estridente”. Boles tampouco economiza críticas ao líder trabalhista, a quem qualifica como “totalitário”, interressado apenas “na luta entre classes e frações da sociedade”. “Esta é a única eleição, nos tempos modernos, em que nenhum dos candidatos principais a primeiro-ministro mereceria a sua confiança para cuidar do seu filho por uma hora que seja. O que dirá para governar o país.”
Trajetórias cruzadas
Ele se espelha em Trump

A prefeitura de Londres foi o trampolim ideal para um político que apenas chegava à meia-idade e iniciava uma ascensão meteórica no Partido Conservador. Entre 2008 e 2016, Boris Johnson consolidou a imagem cultivada desde quando trocou os bancos de escolas da elite, como a de Eton, pelas redações de jornais afinados com a direita londrina, como Daily Telegraph e, principalmente The Spectator. Ainda chefiava este último quando se elegeu deputado pela primeira vez, em 2001. De lá, projetou-se para a vice-presidência dos tories e, em seguida, para a posição de “ministro” da Educação Superior no gabinete-sombra do então líder da oposição, David Cameron.
Desde a juventude, nos meios intelectuais da capital britânica, o hoje primeiro-ministro fez questão de ser visto e notado como um tipo extravagante. Frequentava a noite, colecionava casos rumorosos, nunca poupou adjetivos para desqualificar os adversários. Foi como “politicamente incorreto” que entrou definitivamente na disputa pela liderança do partido, que havia retornado ao poder em 2010, ao fim de 13 anos de governos trabalhistas. O sinal de largada foi a renúncia de Cameron, derrotado pela escolha do Brexit no referendo de junho de 2016.
A essa altura, Johnson já dividia as fileiras do partido depois de ter tomado a frente da campanha pela saída do país da União Europeia (UE), ao lado de Nigerl Farrage. Não teve força para se impor a Theresa May e chegou a integrar o novo gabinete como chanceler — mas já tomava como modelo Donald Trump, que, no mesmo ano, atropelou os cardeais do Partido Republicano nas primárias, venceu Hillary Clinton na eleição presidencial de novembro e chegou à Casa Branca.
Ele não esquece Marx
Quando foi eleito líder do Partido Trabalhista, há cinco anos, Jeremy Corbyn parecia um personagem saído de um livro há tempos guardado na estante. Com um discurso recheado de referências à luta de classes e menções ao socialismo, e um programa assentado em nacionalizações e políticas sociais e tributação progressiva, esse sindicalista de carreira lembrava as raízes mais profundas de uma legenda que vinha de algumas décadas em uma metamorfose profunda.
Hoje com 70 anos, Corbyn ingressou no trabalhismo aos 16, em plena década de 1960, quando os estatutos do partido ainda mencionavam o marxismo entre suas fontes teóricas. Assistiu de perto aos embates entre a velha guarda e os renovadores que procuravam distanciar-se das últimas herança do período anterior à Segunda Guerra. Engajou-se definitivamente na máquina sindical do partido no início dos anos 1970, de volta ao Reino Unido após uma longa viagem pela América Latina — roteiro que incluiu o Brasil da ditadura militar e o Chile do presidente socialista Salvador Allende.
Foi com essa bagagem, temperada por mais de três décadas como deputado, que o intelectual circunspecto surpreendeu um Partido Trabalhista quase acostumado à “terceira via” de Tony Blair. Em um país que começava a questionar a “revolução conservadora” de Margaret Thatcher, que privatizou estatais e quebrou a espinha dos sindicatos, Corbyn roubou a cena e trouxe de volta ao debate político a dicotomia quase esquecida entre esquerda e direita. E aposta nela para transitar da oposição para o governo.
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