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João Paulo fez campanha de liso, mas criativa

João Paulo fez campanha de liso, mas criativa No terceiro capítulo do livro A derrota não anunciada, de autoria deste escriba, produção em c...

João Paulo fez campanha de liso, mas criativa
No terceiro capítulo do livro A derrota não anunciada, de autoria deste escriba, produção em cima dos bastidores da eleição de 2000 no Recife, revelações inéditas sobre as dificuldades financeiras na campanha de João Paulo, prefeito eleito. 
O que chama atenção também são as declarações do marqueteiro Cláudio Barroso, que com uma equipe barata e um estúdio numa produtora que "cheirava a merda", segundo ele, conseguiu levar o petista para o segundo turno e derrotar Roberto Magalhães. Confira abaixo!
Campanha franciscana
Capítulo 3
O amplo favoritismo de Roberto Magalhães – ninguém acreditava sequer na hipótese de um segundo turno – murchou o caixa dos candidatos de oposição. Como nem os líderes nacionais do PT apostavam na viabilidade eleitoral de João Paulo, sua campanha, no primeiro turno, foi a mais franciscana de todas.
Nem carro de som havia. No primeiro ato de rua, uma caminhada da Praça Maciel Pinheiro até o Pátio de São Pedro, duas cornetas instaladas numa Kombi velha pifaram justamente na hora em que João Paulo e o seu candidato a vice, Luciano Siqueira, iriam falar. 
Tiveram que relembrar o tempo em que participavam do movimento estudantil, onde os discursos eram feitos no grito, em cima de um banco de madeira ou em bancos de praça.
“Nós tentamos usar um tablado da Prefeitura e os guardas municipais nos impediram”, lembra Siqueira. A Kombi, caindo aos pedaços, segundo ele, era de João Paulo e tinha sido utilizada na campanha anterior de deputado estadual, quando saiu consagrado das urnas como o mais votado do Estado.
 “Não havia mais nenhum outro carro. 
Aí, passamos a adotar as caminhadas e recorremos até a megafone”, diz João Paulo.
Segundo ele, a saída para a precariedade de recursos foi pegar carona na campanha dos candidatos a vereador.
 “Por incrível que pareça, os vereadores tinham mais estrutura que a gente. Lembro que o meu nome aparecia bem pequenininho nos panfletos e cartazes dos vereadores”, acrescenta.
Luciano Siqueira disse que, no primeiro turno, o material de campanha da majoritária se resumiu a 270 mil panfletos. “Nem candidato a vereador com uma estrutura mediana conseguiria tão pouco. 
O problema é que ninguém apostava na nossa candidatura. Só duas pessoas apostavam – João Paulo e eu” – desabafou.
João Paulo disse que os poucos recursos que recebeu foram remetidos pelo PT nacional, através do hoje ministro José Dirceu.
 “Lula não teve interferência direta, apesar de ser pernambucano. Mas o que o PT nacional mandou foi uma ajuda pequena para material de propaganda. Nós não tínhamos dinheiro para pagar um bom carro de som e faltava grana até para botar combustível nos carros do comitê. 
A nossa salvação eram os candidatos a vereador, que tinham uma estrutura bem maior”, afirmou o prefeito.
Não foram apenas os políticos e o comando da campanha que sentiam os efeitos devastadores de fazer uma campanha sem um mínimo de recursos. 
Quem mais penou com isso foi a produção do guia eleitoral. 
“A casa onde estava a produtora cheirava a merda, de manhã, à tarde e à noite. Parece que vivíamos dentro ou ao lado de uma fossa. 
Nós tínhamos apenas uma câmera velha, uma Parati aos pedaços e um Matrox com ilha de edição. 
Sim, e um editor que até então nunca tinha visto na minha vida”, recorda o marqueteiro Cláudio Barroso, que coordenou o guia petista.
Cabeça privilegiada, competente e experiente em campanhas eleitorais, Barroso recebeu o convite do PT em julho de 2000. 
Quando participava do Camarajeep off road e tentava transpor os obstáculos naturais da trilha, com lama para todos os lados e uma chuva torrencial, tendo à sua frente cinco carros atolados, seu celular toca.
 “Era uma amiga jornalista pedindo uma reunião para o dia seguinte, um domingo (o PT adora reuniões aos domingos). 
Na realidade, tínhamos pouco tempo para o início da campanha e nada preparado. 
A equipe e produtora já tinham sido contratadas, mas pude alterar algumas coisas. 
Chamei uma produtora de minha confiança, a Chica Mendonça, e uma repórter, Gerlândia, boa de briga e que aceitou o salariozinho de que dispúnhamos”, contou.
Com um mínimo de estrutura, Barroso tinha pela frente o desafio de enfrentar adversários poderosos na sua área, como Antônio Lavareda, que dispunha de uma mega equipe e uma estrutura de cair o queixo diante da do PT. 
“Enfrentamos desigualdades terríveis. Nossa briga não era apenas contra a MCI, de Lavareda, mas a estrutura que ele tinha, como a RTV, de Ricardo Carvalho, e a Ampla”, confessa Barroso, e adianta um mar de dificuldades:
"Para disfarçar a péssima fotografia, jogava tudo para preto e branco. 
O candidato era ruim de fala no meio da rua. Então, recorremos ao estúdio, pois teríamos mais controle da situação, segurança e tempo para conseguir um resultado satisfatório. Meu editor de imagens, o Gerson, graças a Deus, era rápido no gatilho. 
E minha grande sorte foi ter ao meu lado Cirlene Leite, redatora da melhor qualidade, disposta, criativa e entendia com grande facilidade o que eu desejava”.
E continua: “Como nosso prazo era curto demais, o programa foi sendo concebido ao mesmo tempo que ia ao ar. Tínhamos um candidato carismático no meio popular e com um passado que lhe credenciava almejar a Prefeitura. 
Primeiro presidente da CUT, primeiro vereador do PT, três vezes deputado estadual, sendo duas delas o mais votado”.
Barroso conta, ainda, que o programa do PT durava 4 minutos e 30 segundos, contra 20 minutos de Roberto Magalhães, o principal adversário. 
“Talvez pelo longo tempo de duração, o programa do adversário era maçante e chato, difícil de assistir, enquanto o nosso, até pelo pouco tempo, era dinâmico, para cima”.
No seu entender, quando Lavareda explorou a imagem de Jarbas, a população ficou tonta, sem saber quem, realmente, era o candidato. “Aí – lembra – aproveitamos para bater na gestão de Jarbas, principalmente na área de segurança. 
Fizemos um programa sobre segurança, com depoimentos fortes e emotivos da população. Com o assassinato do jornalista Cristiano Donato, repetimos o programa anexando uma homenagem a Cristiano. Esse programa mexeu muito com o eleitorado. 
As pessoas comentavam e ate se emocionavam”.
Sem grana para melhorar os recursos do programa, Barroso foi ajudado pelos erros do adversário. “Aquela ‘banana’ em Boa Viagem, por exemplo, caiu como uma graça do Céu. Mas, veio a censura. E aí apelamos para a criatividade”.
Barroso lembra que colocou as manchetes dos jornais sobre o assunto com uma tarda preta “CENSURADO”, deixando em destaque a foto da “banana”. “Teve uma vez, quando nos roubaram quase todo o tempo do programa, nos restando apenas 19 segundos, que colocamos 19 bananas, Foi a última vez que utilizamos as bananas. 
Eles não agüentavam mais”.
Se, no primeiro turno Barroso comeu o pão que o diabo amassou, no segundo, com João Paulo lá, a coisa mudou de figura. “Fomos para uma produtora de fato, com três ilhas, três câmeras, profissionais competentes, uma dupla de criação, duas repórteres, ou seja, éramos 42 pessoas trabalhando com um único objetivo – ganhar a eleição”.
Diante da inversão das pesquisas – João Paulo largou no segundo turno impondo uma frente de 17 pontos em cima de Magalhães – Barroso teve que mudar a estratégia do guia.
 “O programa passou a ser emoção, com clips bonitos e muito humor, principalmente nos comerciais. Já o adversário, partiu para baixarias, apresentando cenas de pancadaria em Brasília e Belém do Pará, querendo associar o PT à baderna”.
"Ao contrário de Jarbas – acrescenta – que tirou a gravata, colocamos a gravata em João Paulo, já para falar como prefeito. 
Nosso programa continuava gostoso de se ver, com músicas de quase todos os estilos e cada vez mais brincadeiras recorrendo a histórias em quadrinhos. 
Com boas músicas cubanas, fizemos clips com coqueiros ao fundo, bailarinos com chapéus do Panamá e belas morenas floridas”.
Mas, para Barroso, o ponto decisivo da eleição se deu com a deflagração da greve da PM. “Foi exatamente aí onde, acredito, ganhamos a eleição, porque eles vinham batendo muito no Governo Arraes e na greve de 97. 
Eram 18 mil homens atormentados e “putos” da vida, que estavam sendo usados, descaradamente, pelo guia eleitoral do senhor Roberto Magalhães, mas que também era de Jarbas. 
Com essa mistura, que eles provocaram, a confusão foi instalada”.
Barroso lembra que houve tiroteio e um carro da TV GLOBO chegou a ser alvejado, em meio à pancadaria entre policiais civis e militares, que, em passeata, cantavam o hino nacional e gesticulavam para as câmeras, mostrando que estavam sem dinheiro, um verdadeiro caos. “Tentamos mostrar essas imagens e ficamos um dia sem horário gratuito”, lembra.
“O mais grave, no meu entender, foi quando eles tentaram passar para a população que era o PT que estaria agitando as tropas para provocar a baderna na cidade. 
A tropa ficou “puta” e nós, utilizando as matérias da União pelo Recife veiculadas naquela noite, fomos desmontando todo o discurso deles e ganhando a confiança e o voto dos militares”, acrescentou.
Nessa mesma noite, segundo Barroso, João Paulo entrou muito bem vestido, por trás de um cenário que já o colocava como o prefeito da cidade. 
O cenário era formado pelas bandeiras do Brasil e do Recife. “Naquela fala, João Paulo mostrava como o feitiço tinha virado contra o feiticeiro”, lembra.
E conclui: “A partir daí, foi só administrar o “alto astral”, com licença de Lavareda, que imperava na nossa campanha. Até as imagens, que só conseguimos no segundo turno, de João Paulo sendo espancado pela PM de Joaquim Francisco, utilizamos de uma forma elevada, para cima. 
O homem que luta com você, sem pieguismo. E, sem contar com as belas caminhadas e carreatas realizadas pela Frente de Esquerda do Recife, com a participação de Lula e milhares de pessoas. Tudo era festa, muito papel picado, muita gente fantasiada, uma alegria que contagiava a todos”.
Apesar de ser uma peça fundamental na vitória de João Paulo, Barroso não recebeu, no governo petista, o tratamento que esperava pelo sangue que deu na campanha. “O PT, no poder, esquece que santo de casa faz milagre”, desabafa, numa referência ao fato de o prefeito entregar a propaganda eleitoral, dois anos depois, a Duda Mendonça.

Informações é do Jornalista Magno Martins de Pernambuco, Blog do Magno Martins 

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