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Pazuello e seus vínculos familiares com a milícia no Amazonas

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No último sábado (14/04), Bolsonaro desembarcou em Goianápolis para promover uma de suas costumeiras – e letais – anarquias, escoiceando o acelerador da máquina de matar do coronavírus.
A tiracolo, Bolsonaro levava Eduardo Pazuello, o ex-ministro da Saúde mais incompetente da história do país, sob o qual a população foi levada a uma catástrofe impensável mesmo nos tempos em que a febre amarela, ou a gripe espanhola, ceifava as existências em nosso território (v. HP 18/04/2021, Sem ter o que fazer, Bolsonaro e Pazuello foram aglomerar e espalhar vírus em Goiás).
Verdade, Bolsonaro é o maior responsável por essa hecatombe – mas Pazuello não é menos, pois, desde o Julgamento de Nuremberg, não se pode pretextar o cumprimento de ordens para se inocentar de um crime. O verminoso subordinado, que comete um crime, é responsável por seus atos, ainda que o seja também o mandante.
Porém, mesmo depois da demissão de Pazuello, Bolsonaro o leva para suas badernas, como aconteceu em Goianápolis, onde as aglomerações e o desprezo por qualquer medida sanitária terão graves consequências nos próximos dias.
Que vínculo existe entre Bolsonaro e Pazuello, hoje um oficial de intendência que não encontra lugar no Exército Brasileiro?
Será apenas o vínculo entre o que manda e aquele que obedece, “simples assim”, como disse o próprio Pazuello, num repugnante ato de auto-humilhação diante de Bolsonaro, depois que este o fez quebrar o contrato com o Instituto Butantan, para aquisição de vacinas contra a Covid-19 (v. HP 24/10/2020, Humilhação de Pazuello causa indignação no Exército)?
Pazuello, entretanto, tinha seus próprios planos políticos, ainda que conjuntos, provavelmente, com Bolsonaro.
Quando ministro, contratou um marqueteiro, um certo Markinho Show, para cuidar de sua imagem. Estava preparando sua candidatura a senador pelo Estado do Amazonas. Já era um delírio desde o início, mas isso jamais foi obstáculo para o entorno de Bolsonaro. O problema é que a gestão de Pazuello na Saúde foi tão hedionda que até o próprio candidato achou melhor desistir. Não houve marqueteiro – nem esse Markinho Show, que também era hipnólogo (!?) – que desse jeito, sobretudo depois de sufocar os amazonenses com cloroquina, enquanto sonegava oxigênio (v. Diego Amorim, As pretensões políticas de Pazuello, antes do tombo, 16/04/2021).
Então, Pazuello tem vínculos políticos com Bolsonaro, além da submissão – que, aliás, nada têm a ver com o espírito (muito menos com o garbo ou o brio) militar.
Que vínculos são esses?
Em 2003, Bolsonaro, então deputado federal, fez um louvor aos membros dos grupos de extermínio da Bahia:
“Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um parlamentar criticar os grupos de extermínio — que enquanto o país não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio… Na Bahia, pelas informações que tenho — lógico que são grupos ilegais —, a marginalidade tem decrescido. Meus parabéns!” (cf. Deputado Jair Bolsonaro, Câmara dos Deputados, 12/08/2003; v. HP 24/04/2019, Bolsonaro e as milícias).
Esse discurso de Bolsonaro é de 2003 – e ele já era, há muito, o principal representante dos assassinos das milícias no Congresso.
Mais de sete anos antes, o irmão de Eduardo Pazuello fora preso e identificado como membro de um grupo de extermínio – ou seja, uma milícia – no Amazonas.
A proximidade de Bolsonaro com Pazuello, já se vê, não é algo fortuito, nem pode ser explicado por uma relação militar – que, de resto, exclui a falta de brio.
Aliás, o fato de que Pazuello tenha planejado sua candidatura a senador pelo Amazonas, mostra que ele não parece nem um pouco inibido pela conduta do irmão. Pelo contrário, pesa mais a representação miliciana – única representação de que Bolsonaro é, realmente, expoente, desde que foi obrigado a despedir-se do Exército.
MENORES PRISIONEIRAS
Um pouco dos fatos que embasam essa relação de Pazuello com Bolsonaro apareceu em duas alentadas (e excelentes) reportagens dos jornalistas Leonardo Fuhrmann, repórter do site De Olho nos Ruralistas e Alceu Luís Castilho, diretor de redação do Observatório do agronegócio do Brasil, organização que publica o site.
A primeira delas, publicada no último dia 15 de março, Irmão de Pazuello foi acusado de participar de grupo de extermínio no Amazonas, mostra, precisamente, que, em se tratando do ninho de cobras em torno de Bolsonaro, por mais que haja desvios, atalhos e sinuosidades, sempre se acaba chegando a alguma milícia, grupo de extermínio, em suma, a alguma ou algumas quadrilhas de assassinos.
Alberto Pazuello, irmão de Eduardo PazuelloAlberto Pazuello, o irmão de Eduardo Pazuello, era membro de uma milícia denominada “A Firma”, formada nos anos 90 em Manaus, “com a participação de policiais civis e militares e o apoio ou conivência de autoridades da segurança pública estadual”.
Este irmão mais velho do Pazuello que destruiu a Saúde, era sócio do outro – aliás, continua sócio até hoje, em três empresas.
A participação de Alberto Pazuello na milícia de Manaus surgiu após dois escândalos, quando ele foi preso por manter menores em cárcere privado e estuprá-las.
A notícia apareceu no jornal “O Estado de S. Paulo”, edição de 30 de maio de 1996:
“Sexo, drogas e videoteipe. Assim vivia o empresário Alberto Pazuello, 42 anos, em sua residência, numa área nobre de Manaus, com adolescentes mantidas em cárcere privado. Elas eram atraídas com anúncios em jornal oferecendo R$ 350 para copeiras e domésticas. (…) Com ele, foram apreendidas uma escopeta, pistola automática, cocaína em pó e pasta, maconha, uma filmadora e fitas com cenas de sexo das garotas” (cf. Kátia Brasil, “Empresário é preso por estupro e tortura”, cit. por Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, reportagem mencionada).
Artigos da época da segunda prisão de Alberto Pazuello
Mas não era a primeira vez que o irmão de Eduardo Pazuello era preso por esse motivo. Da primeira vez, a coisa é, mesmo, mais escabrosa, se isso é possível:
“Alberto Pazuello foi para o presídio sob a acusação de porte de drogas e de armas, estupro, atentado violento ao pudor e cárcere privado. Era a segunda vez em que ele era preso. No ano anterior, contava o Estadão em 1996, outra adolescente de 17 anos tinha sido mantida em cárcere privado: ‘O empresário a deixou cinco dias com os braços amarrados ao exaustor da sauna da casa.A mão direita da jovem teve de ser amputada’” (v. Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, reportagem mencionada, grifo nosso).
A segunda prisão do irmão de Pazuello foi uma consequência da fuga de uma das prisioneiras, que ele mantinha em casa. Esta prisioneira, com 14 anos, fora estuprada, segundo confirmou a perícia, como declarou à imprensa a delegada Catarina Torres, da Delegacia de Crimes Contra a Mulher.
Quanto à outra prisioneira, resgatada pela polícia, a delegada Vera Lúcia Oliveira, da 7ª Delegacia do Amazonas, relatou que, ao se ver em um dos vídeos de sexo que Alberto Pazuello guardava, chorou e disse: “Ele me forçava com uma arma e me torturou”.
O que foi testemunhado pela própria polícia, que prendeu Alberto Pazuello quando ele obrigava duas adolescentes a se humilharem. Uma delas era obrigada a beijar seus pés, quando os policiais entraram no recinto.
MILÍCIA EM MANAUS
Foi durante a segunda prisão do irmão de Eduardo Pazuello, que ele apareceu como integrante de um grupo de extermínio, isto é, de uma milícia.
A questão para a polícia do Amazonas era descobrir se os abusos sexuais – cárcere privado, estupro, pedofilia, tortura – eram um empreendimento particular ou se eram a ponta de um iceberg sanguinário, ou seja, de uma quadrilha de assassinos.
A resposta ficou rapidamente clara: Alberto era membro de um grupo de extermínio denominado “A Firma”, que, entre outras atividades, mantinha “uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia”.
Na reportagem de Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, é reproduzido trecho de um artigo da época:
“Uma testemunha relacionou o empresário Alberto Pazuello, preso desde o último dia 28, a um grupo de extermínio que, segundo ela, atua em Manaus (AM). A testemunha, cujo nome vem sendo mantido em sigilo, depôs na semana passada na polícia e no Ministério Público. É uma ex-empregada, que trabalhou na casa de Pazuello por três meses. Ela identificou oito policiais como integrantes do grupo, autointitulado ‘A Firma’” (cf. “Testemunha liga empresário a grupo de extermínio do AM”, FSP, 04/06/1996).
Em depoimento ao promotor Carlos Cruz, de Manaus, a ex-empregada “apontou um compartimento secreto na casa do empresário [Alberto Pazuello], que seria usado para guardar grandes quantidades de drogas. E contou ter presenciado dois assassinatos no local. A polícia encontrou diversas marcas de balas nas paredes do quintal” (grifo nosso).
IMPUNIDADE
O leitor pode estar – é natural que esteja – curioso sobre o que aconteceu com o irmão do Pazuello que é cúmplice de Bolsonaro, naquela época e depois.
A resposta é: nada.
O segundo processo espera julgamento há 25 anos – segundo fontes da Justiça, como alguns papéis se perderam, aguarda-se sua recuperação…
Quanto à primeira prisão, em 1995, a coisa parece tão ou mais escandalosa.
O Jornal do Commercio, de Manaus, descreveu assim a prisão de Alberto Pazuello:
“Ao dar voz de prisão a Alberto, este recebeu os policiais civis a bala, e a Polícia Militar enviou ao local uma tropa da Polícia de Choque, que conseguiu [entrar n]a mansão, desarmar e deter o revoltado Pazuello” (Jornal do Commercio, 23/06/1995).
Um perfeito gangster, portanto, daqueles que apareciam na antiga série “Os Intocáveis”. Sem contar que a vítima estava com a mão tão destruída, que os médicos tiveram de amputá-la.
Apesar disso, Pazuello foi solto no mesmo dia, devido a uma sentença de um desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas: “Ele ficou foragido por dez meses, até ser preso novamente em maio do ano seguinte” (v. Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, reportagem mencionada).
De lá para cá, nada aconteceu ao Pazuello mais velho, apesar da barbaridade dos crimes – inclusive, com prisão em flagrante.
Mas aqui temos uma característica das milícias – e, particularmente, do grupo de extermínio de que Alberto Pazuello fazia parte: sua infiltração nos meios políticos, e, mesmo, judiciários. Bolsonaro, aliás, é o exemplo mais nítido e mais escandaloso.
Em 1996 – quando Alberto Pazuello foi preso pela segunda vez e acusado de participar do grupo de extermínio 
“A Firma” -, no correr da investigação sobre a Scuderie Le Cocq, milícia fundada no Rio e que atuava fortemente no Espírito Santo, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados teve a sua atenção despertada para Manaus, e, especialmente, para a milícia “A Firma”.
“O presidente da comissão era o então deputado federal Hélio Bicudo, falecido em 2018, que havia se destacado nos anos 70 como promotor de Justiça no combate ao esquadrão da morte de São Paulo.
“Foi o próprio Bicudo que esteve em Manaus, como líder da caravana da comissão. 
A situação era vista como muito grave pelos próprios parlamentares. 
O ex-deputado federal Nilmário Miranda lembra que o grupo tinha vínculos com a elite econômica do município e diversos tentáculos dentro dos três poderes do estado. Havia suspeitas de ligação do próprio secretário de Segurança Pública — hoje também falecido — com a Firma, além de pelo menos um deputado estadual. Um radialista ligado a eles divulgava as ações do grupo.
“Como acontecia com outros desses grupos, a criação vinha sob o argumento de combater a criminalidade fora do sistema judicial. 
No entanto, como lembra Miranda, os próprios grupos passam a cometer outros crimes.
 A Firma era acusada de manter uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia. Um desembargador chegou a ser apontado como um dos clientes da rede” (v. Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, reportagem mencionada).
A situação em Manaus, em relação a esse grupo de extermínio, estava fora de controle quando Hélio Bicudo e a Comissão da Câmara lá chegaram. Mas não foi fácil, mesmo depois disso, prender e processar os milicianos – uma parte, como Alberto Pazuello, continua impune.
“Hoje procurador de Justiça aposentado, o promotor Carlos Cruz teve papel central nas investigações contra o grupo. ‘Foi um caso muito difícil, a gente recebia muitas ameaças e teve até ciladas’, conta. O apoio da comissão nacional e até de organismos internacionais foram importantes para o prosseguimento das investigações. ‘O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz em 1980, esteve em Manaus e aproveitou para se reunir comigo para falar sobre o assunto’, recorda” (v. Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho, reportagem mencionada).
PAZUELLO & PAZUELLO
Alberto Pazuello poderia ser apenas a ovelha negra da família, incômodo ou mesmo insuportável para os demais irmãos e outros membros do clã – em especial para Eduardo Pazuello, que ostenta o título de general de intendência do Exército.
Há certas vergonhas que as famílias escondem ou querem ver longe – e, às vezes, com razão.
Mas, no caso, não é assim.
Alberto Pazuello é sócio de Eduardo Pazuello em três empresas.
São sócios na J.A. Leite Navegação; na Petropurus Representações e Comércio de Petróleo; e na N. Pazuello e Cia. Manaus.
Também eram, ambos, sócios minoritários em uma financeira, a S.B. Sabbá, Crédito, Financiamento e Investimento S/A, cujo sócio majoritário era Samuel Benayon Sabbá.
A S.B. Sabbá, posteriormente, foi absorvida pelo Banco Garantia, de Jorge Paulo Lemann.
Os repórteres Leonardo Fuhrmann e Alceu Luís Castilho observam algo interessante – ou, no mínimo, peculiar: o representante da família Pazuello na S.B. Sabbá era Artur Soares Amorim, que foi chefe de gabinete de Roberto Campos, quando ministro da ditadura.
Os Pazuello foram para o Amazonas gerenciar empresas dos Sabbá, que tinham um império no Estado e cresceram ainda mais após 1964 – as duas famílias são aparentadas, ambas de origem judaico-marroquina.
Porém, como este é um outro – e longo – assunto, para os negócios dos Pazuello em geral, ver, dos mesmos autores, Família Pazuello: do enriquecimento ao lado do “Rei da Amazônia” ao colapso político.

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