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A fantástica história do ex-combatente que empregou Bartô Rodrigues

  A fantástica história do ex-combatente que empregou Bartô Rodrigues Após a entrevista que fiz, ontem, com o secretário de Cultura do Distr...

 


A fantástica história do ex-combatente que empregou Bartô Rodrigues

Após a entrevista que fiz, ontem, com o secretário de Cultura do Distrito Federal, jornalista Bartolomeu Rodrigues, remanescente da nação poética do Pajeú das Flores, onde todas as almas são de cantadores, como disse Rogaciano Leite, ouvi uma bela história dos velhos tempos em que ele atuava como repórter em Brasília, em meio já a uma grande concorrência por um lugar ao sol entre o final dos anos 70 e início de 80.
Como todo nordestino audacioso, que sonha alto e busca voo de águia, tangido pela seca em Serra Talhada, Bartô, seu nome de guerra no meio jornalístico, aterrisou na capital federal de mala e cuia para estudar Jornalismo na Universidade de Brasília, a famosa UNB, que dispensa apresentações.
Morava numa pensão paga com mesada do pai. O dinheirinho suado só dava para o aluguel do quarto e as refeições. Diversões? Bartô não tinha esse privilégio dos filhos da elite candanga. A batida era pesada no estudo puxado da universidade. Tinha que obter boas notas para botar o diploma debaixo do braço, catar emprego e orgulhar o pai, que não grudava um só momento das notícias do filho, seja por meio de cartas ou, de vez em quando uma ligação interurbana (cara para os padrões da época).
Atrevido, Bartô entrou na disputada redação do Jornal do Brasil, sucursal de Brasília, em busca de um estágio. "O que você sabe fazer?", quis saber Luiz Recena, o jornalista que o entrevistou, responsável pela seleção de focas (iniciantes na profissão) no velho JB. "Mentir", respondeu, na maior cara de pau, provocando uma boa gargalhada no entrevistador, que, curioso, passou um teste de redação para ele.
Bartô apurou a informação, redigiu o texto, deixou com Recena e foi embora. No dia seguinte, abre o JB e lá estava sua matéria na íntegra, sem alterações, mas não assinada, claro. Bartô ganhou o dia e concluiu que havia emplacado a vaga de estagiário. A expectativa estava correta, mas não fora suficiente para desbancar tantos concorrentes estagiários.
De um colega já veterano na profissão, Bartô soube da existência de um ex-combatente de guerra no Núcleo Bandeirante, uma das pioneiras cidades satélites de Brasília. Num pleno domingo, quando muitos se divertiam, Bartô foi à procura do personagem. Saiu de lá com uma história fantástica, de enredo de novela. Escreveu 12 laudas (papel com 30 linhas no qual os textos eram datilografados) a mão, na pensão em que morava, porque não tinha máquina de escrever, de tão pobre que era.
Madrugou na redação do JB para datilografar o que havia escrito a mão. Deu exatamente as 12 laudas, o suficiente para fechar uma página. Ao final, depois de duas horas catando milho (era dedógrafo), Bartô se dirigiu a Recena e disse: "Estou lhe trazendo essa história aqui". Recena reagiu: "Que danado é isso? Não lhe pautamos nada". Mas eu soube e fui atrás, completou Bartô.
Bartô foi para uma mesa ao lado, levantou a máquina de escrever e ficou escondido, olhando para Recena pelos buracos do teclado. E observou que o futuro chefe estava à sua procura depois de enfiar os olhos no texto. "Bartolomeu", gritou Recena. Estou aqui, apareceu o foca, mostrando a cara por trás da máquina da velha Remington. Recena gostou do enredo e perguntou pela foto do personagem. Bartô não havia fotografado, pois não era fotógrafo e não tinha certeza de que o jornal iria se interessar pelo assunto.
Recena chamou um fotógrafo imediatamente e mandou Bartô ir com ele até o endereço do ex-combatente. Foram 40 minutos de esporro. O fotógrafo ficou P da vida e saiu dando lição de jornalismo no foca por não ter feito a pauta com um colega de imagens. Missão cumprida, no dia seguinte o JB chegou às bancas trazendo na manchete as revelações do ex-combatente. Um tremendo furo, Bartô virou celebridade entre os focas, ganhou respeito e admiração dos colegas já curtidos no batente.
Faltava, entretanto, o mais importante: a garantia da vaga de estagiário. Recena chamou Bartô em sua sala e comunicou que seria contratado para o estágio, mas o advertiu quanto ao salário, informando que seria baixo e que não se animasse. Para felicidade do iniciante e atrevido repórter, o valor era três vezes superior ao que o pai mandava como mesada, lá de Serra Talhada.
Saltitante, chorando por dentro e por fora, Bartô fez um interurbano para o pai contando a boa nova e dispensando, consequentemente, a pensão integral já a partir do próximo mês.
Desde aquele dia, o velho, além da alegria de ver o filho brilhar nas mais importantes redações de Brasília, chegando a chefe do Estadão, ainda passou a receber de volta os trocados que havia investido na formação acadêmica do agora famoso filho.
Os valores se invertiam: agora, era o filho retirante da seca irrigando de felicidade o coração e o bolso do pai.

Coluna do Jornalista Magno Martins 

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