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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

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Hoje é o último dia de funcionamento do maior aterro a céu aberto da América Latina: o Lixão da Estrutural, que encerra as atividades contabilizando dez mortes e 32 acidentes apenas de 2009 a 2017, segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT). Boa parte das pilhas de lixo e das cicatrizes do trabalho permanecerá por um bom tempo no local. Ainda existem trabalhadores que passaram anos ali e sofrem com os efeitos da exposição aos dejetos contaminados e gases fortes.

Celma Cristina, 42, deixou a catação há dois anos por pedido médico. Foram 25 anos debaixo de sol e de chuva, em volta de resíduos de todo o tipo, sem contar os animais que se alimentam do lixo. Como resultado, uma dor de cabeça que não passava nunca. Até que um dia, no hospital, ela foi informada dos males provocados pelos gases do material em decomposição. Depois disso, emprego fixo ainda não veio. A baiana de Alagoinha, que veio ao DF para tentar a vida, sobrevive com os bicos que consegue.
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“Teve gente que perdeu pé. Caçamba que caiu em cima das pessoas”, lembra a ex-catadora. Até a filha dela se acidentou e, por pouco, não ocorreu algo pior. “Ela queria namorar. Falei para ela que era melhor trabalhar para ajudar no sustento de casa. Quase um mês depois, uma caçamba estava derramando o lixo quando uma mulher a empurrou. A sorte foi que a roda pegou apenas na perna, que não chegou a quebrar”, relata.

Ações trabalhistas
À época, a menina tinha 11 anos e não era a única criança por ali. Tanto que, em 2012, o procurador do MPT, Valdir Pereira da Silva, entrou com ação para impedir o trabalho de menores e pediu uma indenização de R$ 50 milhões para o GDF e o Serviço de Limpeza Urbana (SLU). O magistrado deu início à ação após a morte de Aurilene Marcelino, 15 anos, atropelada por um caminhão. Porém, o processo ainda tramita na Justiça e ninguém foi responsabilizado.

A morte mais recente, em setembro passado, foi de um adolescente de 14 anos, atropelado por uma carreta enquanto trabalhava ao lado do pai. A audiência de instrução para do processo está marcada para 6 de fevereiro.

Já outra ação do MPT, agora sobre a precariedade do ambiente de trabalho dos catadores, está na Justiça desde 2015 e não tem data para análise. O mesmo procurador decidiu responsabilizar o GDF, o SLU e empresas envolvidas pelas mortes de Vanderlina da Silva Lopes, em 2015, Adrivan dos Santos e João Paulo dos Santos Pereira, em 2014. Com exceção de João Paulo, que faleceu afogado em chorume, os outros foram atropelados por tratores.

Desemprego

“Muito pai de família vai ficar desempregado. O governo fala que é uma vergonha ter catador nessa situação, mas é o que temos para viver. Como vamos fazer para pagar aluguel?”. A indagação é de Pedro Alves, 42, catador há 12 anos, e que não sabe o que vai fazer a partir de segunda-feira. Ele é um dos 2 mil autônomos, sem filiação a cooperativas. Para Pedro, o ganho nos galpões é pequeno – cerca de R$ 400 por mês. Já no lixão, ele chega a fazer até R$ 500 catando revistas.

Com o encerramento das atividades, o lixo doméstico irá para o Aterro Sanitário em Samambaia, e o que estiver no lixão será coberto de terra e compactado. O lixo reciclável vai para os galpões dos catadores. Diferente do que ocorre hoje: das 2,7 mil toneladas de lixo no DF, 900 toneladas vão para o aterro, e 1,8 mil, para o lixão.

Versão oficial
O Serviço de Limpeza Urbana (SLU) não comentou sobre os processos que correm na Justiça contra o local. Apenas disse que seria importante ressaltar que todos os catadores que trabalham no Lixão podem se associar às oito cooperativas contratadas pelo SLU para trabalhar nos cinco galpões disponibilizados pelo governo de Brasilia de triagem dos resíduos da coleta seletiva. “Todos os catadores cadastrados receberão compensação financeira, aliada à capacitação profissional. Além disso, eles já estão sendo realocados para galpões de triagem equipados com esteiras, empilhadeiras, prensas e todo equipamento de proteção individual (EPI) para a triagem dos materiais recicláveis em turnos variados”, informa.

Amor entre os rejeitos
Não teve valsa nupcial para a entrada da noiva, nem cadeira para os convidados, mas a felicidade dos noivos era grande. Até porque o céu limpo e o pôr do sol contribuíram para que o casamento de Valdineide Ferreira, 62, e Deoclides Nascimento, 38, fosse da forma com que eles planejaram: no lixão da Estrutural, onde se conheceram, e rodeados de familiares e amigos.

“Um sonho realizado”, disse Baiana durante a cerimônia. Os dois se conheceram no Lixão há cerca de um ano e era um desejo da mulher se casar antes do fechamento. A organização do casório partiu de amigos, da Administração Regional da Estrutural e do Lixão. Teve direito ao comum atraso da noiva, que chegou ao tapete vermelho uma hora e meia após o previsto.

O casal, que mora na Estrutural, não revela onde passará a lua de mel. “Estou muito alegre porque fiz o que queria e tenho alguém que me ama”, afirma a mulher, ao lembrar rindo que, na primeira vez que iria se casar, acabou sendo abandonada no altar. Por isso, o alívio de ter ao seu lado Deoclides. Uma das filhas de Valdineide, Carla dos Santos Ferreira, 35, diz que ficou muito alegre pela mãe ter realizado seu sonho.

O noivo não entrou em uma família pequena: dos 12 filhos de Baiana, apenas dois estão vivos. Mas há 10 netos e um bisneto. O membro mais novo da família, criada com o dinheiro dos 25 anos de catação da matriarca, é o filho de Carla, David, de apenas três meses.

Mulher decidida
Valdineide lembra que deu o primeiro passo na relação. “Eu estava com uma jornalista e comentei que tinha visto um moreno bonito. Eu cheguei nele e perguntei se era solteiro. Quando ele disse que sim, já sentei no colo”, brinca. Para Deoclides, o que mais chama a atenção na esposa são “as qualidades dela como pessoa”.
Fonte: Jornal de Brasilia
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