segunda-feira, 15 de abril de 2019

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Escolas do DF lutam contra o bullying e outros tipos de violência
Secretaria de Educação busca adotar políticas cidadãs para combater condutas que prejudicam o ensino

Lorrany Cristina (esq.) e Anna Karolyna (dir.)Quem hoje vê a alegria no rosto de Anna Karolyna Santos, 16 anos, não imagina que um dia a estudante teve dificuldades para esboçar um simples sorriso. A adolescente, que na roda de amigos é motivo de elogios pelos longos cabelos cacheados, viveu momentos de solidão e foi vítima de piadas e brincadeiras de mau gosto por outros colegas de escola. “Eu deixei de ter amigos e quase não saía de casa. Ficava com medo de fazer qualquer coisa, pois sempre pensava no que os outros falariam de mim. Até hoje, o trauma é muito grande”, admite.
O que aconteceu a Anna Karolyna é uma realidade que ainda assola muitos alunos de escolas públicas do Distrito Federal. O bullying, segundo a Secretaria de Educação, é o principal motivo de desavenças entre os estudantes da capital do país e a violência mais comum no interior das instituições de ensino do DF. “Todo mundo falava do meu peso, e por conta disso, passei a não me alimentar direito. Em alguns meses, desenvolvi bulimia e fui diagnosticada com anemia. Graças ao apoio de pessoas que realmente se importavam comigo, consegui superar o bullying. O que ocorreu a mim, eu não desejo a ninguém”, completa a estudante.
Além de ser preocupante pelos danos psicológicos e psiquiátricos à vítima, o bullying é um perigo por ser um tipo de discriminação que pode evoluir para ocorrências mais graves, como agressões físicas, ameaças de morte ou até atentados a instituições de ensino. Em 18 de março, por exemplo, cinco estudantes do Centro Educacional Gisno, escola pública da 907 Norte, assustaram a comunidade escolar ao anunciarem que fariam um massacre no colégio. Se aproveitando do momento de comoção nacional após a chacina em Suzano (SP), cinco dias antes, eles fizeram “uma brincadeira” para pôr medo a outros alunos e a professores. Como punição, os estudantes foram transferidos de instituição de ensino. Em depoimento à polícia, pelo menos três deles citaram que haviam sofrido bullying.
"Não vou fazer ao outro aquilo que eu não gostaria que fizessem a mim. O mínimo que podemos fazer é estender um
braço amigo"
Lorrany Cristina
“A escola é um organismo social que contribui diretamente para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Cada aluno tem um conjunto de particularidades e precisa de atenção. Portanto, o colégio tem que ter clareza quanto ao seu papel de formação e organizar um projeto pedagógico relevante para que os estudantes se sintam motivados à aprendizagem”, alerta o professor do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB) Cleyton Hércules Gontijo.
Na visão do especialista, o bullying ocorre devido a relações excessivamente autoritárias no ambiente escolar. Segundo ele, alunos, e mesmo professores, se fazem valer da força ou da opressão para lidar com algumas situações. Isso é prejudicial, e apenas fomenta as relações de violência, diz o professor. “É fundamental a criação de uma consciência de respeito no ambiente escolar. Os direitos precisam ser respeitados. É necessário que haja um processo de socialização em que os alunos reconheçam os seus valores e sintam-se parte daquele ambiente”, analisa.

"Queremos que os alunos vejam na direção uma possibilidade de conversa", Nilson Magalhães, diretor do Centro de Ensino Médio 4 de Ceilândia
Ajuda de todos
Diretor do Centro de Ensino Médio 4 de Ceilândia, Nilson Magalhães conta que o corpo pedagógico do colégio oferece suporte aos alunos da instituição cotidianamente. Por entender que o bullying é um tema recorrente nas escolas públicas, ele orienta aos professores que tratem os cerca de 1,5 mil estudantes do colégio com postura e ética. “Nunca tivemos um histórico de violência, mas todos os dias pedimos que os professores observem, dentro de sala de aula, se existe algum aluno com postura diferente. Caso seja necessário, ele é encaminhado à orientação educacional. Queremos que os alunos vejam na direção uma possibilidade de conversa e sintam-se confortáveis para buscar ajuda”, garante.
Outra medida adotada pela instituição de ensino é a avaliação do comportamento psicológico dos estudantes por meio da análise de desenhos. “Uma professora de sociologia pede aos alunos para que eles expressem seus sonhos e angústias por meio da arte, o que nos permite reconhecer quais estudantes precisam de ajuda. Assim, conseguimos observar as suas condutas com mais cuidado e acompanhá-los junto à família”, comenta.
Os alunos também são instruídos a respeitar as diferenças dos colegas e contribuir para um ambiente mais harmonioso. Lorrany Cristina Azevedo, 17, que assim como Anna Karolyna foi vítima de bullying por conta do peso, é sempre atenciosa com os demais colegas. “Eu sei o quanto uma rede de apoio é importante para superar esse problema. Assim como eu, quem viveu essa experiência não pode deixar que mais estudantes sejam prejudicados. Não vou fazer ao outro aquilo que eu não gostaria que fizessem a mim. O mínimo que podemos fazer é estender um braço amigo”, diz.

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