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Contra o racismo, escolas públicas trabalham temas relacionados à negritude

Ana Beatriz da Silva Viana(foto: Tei Silva/Divulgacao) Contra o racismo, escolas públicas trabalham temas relacionados à negritude Escolas p...



Ana Beatriz da Silva Viana(foto: Tei Silva/Divulgacao)

Contra o racismo, escolas públicas trabalham temas relacionados à negritude
Escolas públicas do Distrito Federal trabalham temas relacionados à negritude com ajuda da arte, da literatura e da história.
Nelson Mandela disse, certa vez, que a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo. Em uma sociedade em que as pesquisas e a realidade mostram desigualdades e intolerâncias, esse pode ser um dos pontos mais importantes do combate. A população negra do Distrito Federal vive os males da falta de educação e conscientização quando é vítima de crimes de racismo, situações de preconceito e falta de representatividade, entre outras marginalizações. Mas educadores brasilienses têm buscado mudar esse cenário com atividades dentro das escolas que tentam moldar novos futuros.
Os projetos foram incentivados pelo Mês da Consciência Negra e ganharam força com a criatividade e participação ativa dos estudantes. Com ajuda do teatro, da literatura, da pintura, da escrita e das esculturas, os professores puderam dar aulas de respeito e empoderamento. No Centro de Ensino Fundamental (CEF) 1 Planalto, crianças do 1º ao 5º ano, que dificilmente encontram bonecas de pele escura nas lojas, aprenderam e brincaram. “Todo mês de novembro, as escolas da Secretaria de Educação trabalham atividades de conscientização, mas sempre procuramos inovar. Neste ano, a escola se envolveu em um projeto de confecção de bonecas negras”, contou a diretora, Nice Coimbra.
Os brinquedos foram produzidos com materiais recicláveis e, simultaneamente, os professores deram aulas sobre cultura, história e sociedade, com conteúdos personalizados para cada idade. As reações das turmas e dos pais foram as mais diversas. “Os alunos gostaram bastante, tanto que muitos trataram as bonecas com carinho, alguns dizendo até que ganharam uma irmã. Mas também descobrimos que teve família de estudante que não aceitou, devolveu para a escola falando que não queria uma boneca preta em casa. Isso mostra que nosso trabalho tem de se expandir para a comunidade também, porque o racismo vem mais dos adultos do que das crianças”, contou Nice.
A professora que idealizou o projeto avalia que atitudes simples na infância ajudam na construção de um futuro melhor. “A atividade é uma forma de valorização dos alunos e da pessoa negra. Primeiro, porque eles mesmos produziram, então conseguem ter mais identificação com o brinquedo. Segundo, porque é muito importante eles se reconhecerem. A cada aula, a cada passo da confecção, eles se sentiam mais representados. Isso desenvolve amor, que é essencial para um mundo com mais respeito”, explicou Maria Luciene Ribeiro, educadora do 2º ano do ensino fundamental.
Cultura que ensinaResgatar a autoestima de crianças negras, combater o preconceito que elas enfrentam e ensinar sobre a contextualização do racismo no Brasil são desafios que exigem muitas ações. Foi pensando nisso que educadores da Escola Parque 210/211 Sul começaram o Projeto Valores, há dois anos. As atividades são vastas: os alunos fazem desfiles de moda africana, assistem a apresentações de artistas negros, participam de oficinas de dança black, recitam poesias sobre preconceitos e fazem pinturas que ressaltam a pele preta, por exemplo. A professora Etelvina Silva conduz e se orgulha a cada edição.
“Dizem que somos todos iguais. Mas eu sou mulher, negra e nascida na periferia de Brasília, então sei que é mentira. Negros são sempre perseguidos. Então, o projeto tem como objetivo criar um ambiente diferente, de aceitação dos alunos”, conta. Desde que foi idealizada, a iniciativa provoca mudanças positivas no dia a dia das crianças e auxilia na construção de visões mais empáticas com o próximo e consigo mesma. “A escola tinha muito bullying entre os alunos. Quem tinha pele escura era tratado de maneira diferente e vários queriam ter cabelos lisos. Mas no projeto mostramos a força da cultura negra, explicamos que somos descendentes de reis e rainhas. Isso é ótimo para as crianças, elas sabem que nossa arma é estudar para nos formar e fazer com que os racistas engulam o preconceito”.
Os depoimentos de quem viveu as atividades mostram essas transformações. Aylla Maria Vieira, 9 anos, se orgulha de se olhar no espelho. “Hoje eu aceito a cor da minha pele como é. Acho lindo meu cabelo. Todos têm de respeitar a cor negra. Achei o projeto muito legal, principalmente por causa do desfile de moda”. Para Kaweh Henrique Freire Costa, 8, também é importante que todos os alunos trabalhem a conscientização. “Queremos que os outros aceitem nossa cor, como a gente é, sem julgar pela aparência”, pediu. Ana Beatriz da Silva, 10, finaliza: “Aprendi que todos temos que ter respeito e combater o racismo, porque todo mundo é ser humano”.
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Arte para aproximarEnquanto maiores os alunos, maiores as complexidades do racismo. Essa é a realidade de estudantes da modalidade Ensino de Jovens e Adultos (EJA) do Centro Educacional 1 de Brasília, que atende seis unidades prisionais do Distrito Federal. O diretor da instituição, Wagdo da Silva, explica que mais da metade dos estudantes são negros e passaram por situações de marginalizações, o que exige um trabalho multidisciplinar. Um dos eixos que vem fazendo sucesso no aprendizado e na conscientização é o teatro. “O projeto de artes cênicas busca trabalhar os problemas relacionados ao cotidiano dos internos e às questões sociais, que envolvem debates de etnia, segurança pública e identidade, por exemplo. Então, temos alunos que contam para nós que, depois de uma apresentação teatral, se sentiram mais humanos. Antes, devido às origens e a cor, eles achavam que se sentir assim estava distante do que poderiam sonhar”, detalha.
Uma das educadoras que auxilia nas atividades, Iza Maia, trabalha como professora do EJA há 15 anos e avalia que toda escola precisa reflexionar sobre as emoções dos educandos, mesmo aquelas negativas. “Trabalhar questões mais pesadas e negativas, como a tristeza, a raiva, o racismo e a exclusão, é essencial para qualquer ser humano, principalmente os encarcerados. O teatro é ótimo para isso”, opina. Nas aulas, os estudantes conseguem compreender mais sobre a realidade que os cerca e passam a usar a arte como caminho. “O país é racista e a carceragem é ainda mais. Mas no projeto nós batemos na tecla da aceitação das diferenças e o combate ao preconceito. Esse tipo de tema é tratado pelo teatro como nenhuma outra disciplina consegue. A arte aproxima os seres humanos”, conclui.
Poesia realizada em oficina na Escola Parque 210/211 Sul
Adrielle Aparecida, 10 anos, 5º ano do ensino fundamental
Sou negra pode crer
Sei viver e florescer
Não me chame de fraca
Porque fraca eu não sei ser
Aprendi a crescer e a minha vida conhecer
Antes dela algo me dizer
Traços femininos e negros estampados na minha cara
Fazem de mim linda e rara
Brinque, ria e comente
Mas que mal a mulher negra te fez pra fazer isso com a gente?
Só mais uma coisaPode falar o que bem entender
Mas tá aqui a mulher negra
Que sempre vai lutar pra vencer

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