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Torcida contra as jogadas

O país do futebol expõe para o mundo os exageros cometidos no Brasil para a realização dos megaeventos esportivos que deixam milhares de de...


O país do futebol expõe para o mundo os exageros cometidos no Brasil para a realização dos megaeventos esportivos que deixam milhares de desabrigados


O pontapé inicial dos megaeventos esportivos já doeu bem mais que o “chute no traseiro” prometido pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, e foi bem diferente da festa do povo nas ruas, que os marqueteiros chamaram de “a maior arquibancada do Brasil”.



De acordo com um levantamento feito pela ONG brasileira Articulação Nacional dos Comitês Populares (Ancop), nas 12 cidades-sede escolhidas para abrigar os jogos da Copa do Mundo de 2014, mais de 250 mil pessoas em todo o País podem ter sido desalojadas por causa das obras de construção e reforma nos estádios (foto 3).

“Os megaeventos esportivos devem ser uma oportunidade para melhorar o acesso à moradia adequada, o sistema de transporte e fazer melhorias ambientais nas cidades-sede. Mas, a experiência passada mostrou que esses eventos resultam muitas vezes em remoções forçadas, despejos, operações de ‘limpeza’ contra a população sem-teto e aumento geral dos preços da habitação”, declarou, via comunicado, Raquel Rolnik, Relatora Especial da ONU sobre Direito à Moradia Adequada e que teve acesso ao documentário produzido pela Ancop.

Rolnik acrescentou: “Espera-se que o Brasil, campeão de muitas copas de futebol, use esta oportunidade para mostrar ao mundo que também é campeão do direito à moradia, em especial para as pessoas que vivem na pobreza, mas a informação que recebi mostra o contrário”.


Manifestações e violência




Nos arredores do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, os 10 mil policiais militares e soldados das Forças Armadas destacados para fazer a segurança de torecedores e atletas, acabaram entrando em confronto com os manifestantes. que protestavam contra o dinheiro gasto na construção do estádio (fotos 1 e 2).

“Só queríamos mostrar nossa indignação e denunciar ao máximo as violações cometidas contra a população para a realização desses megaeventos, mas recebemos tiros de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo”, relatou Francisco Santiago, integrante da Ancop, sobre as manifestações durante a Abertura da Copa das Confederações.

A força das redes sociais e a presença das mídias independente e internacional durante a Copa das Confederações fizeram com que os protestos contra o uso indevido do dinheiro público repercutissem mundialmente. O aumento do custo de vida nas cidades-sede do evento, os altos gastos com projetos de reforma e de construção de novos estádios e a falta de investimento em áreas mais carentes como saúde e educação foram destaque em veículos como The New York Times, dos Estados Unidos; Clarín, da Argentina; BBC, da Inglaterra; El País, da Espanha; e Le Monde, da França.



A Copa de 2014 poderá ser a mais cara dos últimos 12 anos. No início, o custo previsto com os estádios era de R$ 5,5 bilhões. Agora, a previsão passou para mais de R$ 7,1 bilhões. Vale lembrar que o dinheiro gasto com esses megaeventos deveria priorizar as cidades e quem vive nelas. Mas o investimento está sendo usado para a realização do evento, mesmo que de forma precária, e a sensação é de que o legado se resumirá a estádios. Em relação às cidades, o que se vê são intervenções equivocadas nas ruas, com prioridade para a circulação de carros e alargamentos de ruas, e obras causando a desapropriação de, pelo menos, 200 mil imóveis cujos proprietários receberam indenizações irrisórias (foto 4)

“Exatamente pelo Brasil alegar acordo internacional com a Fifa, nós da Ancop fomos fazer a denúncia em Genebra, na Suíça, durante o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Lançamos a jornada de luta ‘Copa pra quem?’ e exibimos o vídeo ‘Quem ganha com esse jogo’, com todas as violações aos direitos humanos”, disse o representante da Ancop.

Irregularidades são verificadas em todas as cidades que receberão o Mundial, inclusive com denúncias do Ministério Público. A expectativa dos manifestantes é evitar a remoção desnecessária de quem ainda está sob ameaça em suas casas, segundo frisou Santiago, que viu outras violações aos direitos humanos durante a Copa das Confederações que não podem se repetir no Mundial.

“É mentira afirmar que os protestos querem bloquear passagem de torcedor ou alguma seleção”, declarou Santiago, indignado, antes de apontar a apreensão de material de ambulantes. “A Copa não iria trazer renda ao brasileiro? Aí o trabalhador tem material apreendido”, questionou.

“O cidadão nem pode mais circular pelas ruas próximas ao estádio ou protestar? Isso fere o direito democrático. Mesmo se atrasar o jogo por causa da manifestação, o jogo é mais importante que o direito do brasileiro?”– perguntou Santiago.

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