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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

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Ari Cunha deixa legado de inovação e pioneirismo a Brasília
Responsável por erguer o Correio Braziliense em meio ao grande canteiro de obras no Planalto Central, Ari Cunha, que morreu aos 91 anos, deixa um legado de inovação e pioneirismo. Ele também se destacou por defender Brasília

SF Severino Francisco


A cidade perdeu as palavras humanistas, fortes e políticas que Ari Cunha publicava todos os dias, desde 1960. O colunista e vice-presidente institucional do Correio Braziliense morreu, ontem, aos 91 anos. Ele sofreu falência múltipla dos órgãos por causa da idade e das condições de saúde, segundo a filha Circe Cunha. O velório ocorre a partir das 9h de hoje, na capela 6 do Cemitério Campo da Esperança, com sepultamento previsto para as 17h.

Ari Cunha deixa um legado profissional que se mistura com a identidade candanga. Ele fez parte dos sonhadores que acreditavam na perseverança de Juscelino Kubitschek. Lutou contra todos os que duvidavam que no cerrado inóspito se ergueria a esperança de um Brasil melhor. O jovem cearense, filho de Eva e Raimundo Gomes de Pontes Cunha, apaixonado por pássaros e música, ajudou a fazer do Correio Braziliense uma referência nacional.

Amor à profissão
“Eu quero escrever no jornal!” Com esse brado, Ari Cunha conseguiu o primeiro emprego como revisor da Gazeta de Notícias, de Fortaleza e, logo em seguida, passou a trabalhar no jornal Estado: “Já teve o primeiro emprego como jornalista com 16, 17 anos, dizendo ‘eu quero escrever no jornal’, e deram essa chance para ele”, lembra a filha Circe Cunha. “Ele é uma pessoa que empregava todo mundo competente.”
Lino Ferreira, 64 anos, gerente de produção do Correio há 45, recorda que aprendeu e teve a primeira oportunidade de emprego com Ari Cunha: “Fico muito triste. Foi ele quem me deu o primeiro e único emprego. Ensinou-me tudo o que sei até hoje, principalmente sobre a vida”.

As redações dos jornais sempre foram a segunda casa de Ari Cunha. Desde criança, revelou o gosto pela palavra e pela profissão de jornalista. Nunca quis fazer outra coisa. Ari Cunha é o pseudônimo jornalístico adotado por José de Arimathéa Gomes Cunha, nascido em 22 de julho de 1927, na cearense Mondubim.
Em julho de 1959, foi contratado por Edilson Cid Varela, gerente do periódico O Jornal. A Ari Cunha foi confiada a reforma da Folha de Goiaz, em Goiânia, onde permaneceu até setembro daquele ano. É que Assis Chateaubriand, o comandante dos Diários Associados, havia, em um dos seus típicos rompantes, prometido ao então presidente Juscelino Kubistchek que, se ele inaugurasse a nova capital em 21 de abril de 1960, o grupo também se estabeleceria com uma estação de TV e um jornal.

Ari Cunha recebeu a missão de vir a Brasília instalar e colocar em funcionamento o Correio. Em entrevista, Cid Varela conta que fez recomendação ao funcionário Vitor Purri para que Ari tivesse como e onde comer e fosse alojado no acampamento de obras. A recepção não poderia ter sido melhor: “Atrapalhe-nos o menos possível e dar-lhe-emos o máximo de colaboração”, avisou Purri.

*Vídeo produzido em comemoração aos 40 anos da coluna "Lido, Visto e Ouvido", de Ari Cunha no Correio Braziliense

Ari não se intimidou. Pilotou um jipe e saiu para solucionar o primeiro desafio: encontrar o terreno onde seria construído o prédio no meio da vegetação retorcida do cerrado e das nuvens de poeira de uma cidade em estado de gigantesco canteiro de obras. O segundo foi desmatar a área e acompanhar a construção tijolo por tijolo: “A foto mais linda do papai no início de Brasília é quando ele colocou a placa no meio do cerrado indicando que ali seria o Correio Braziliense” (leia artigo na página 19), comenta Circe Cunha.
A primeira edição teve 120 exemplares, mas, no fim da década de 1960, o Correio cresceu e precisou substituir a impressora rotoplana por uma rotativa para atender a demanda de ampliação da tiragem. Os jornais dos Estados Unidos usavam o sistema off set, muito mais veloz, eficiente e de qualidade, ainda desconhecido no Brasil: “Ele trabalhou a vida inteira em jornal, não conhecia apenas a redação, mas se interessava muito pela parte técnica. Foi aos Estados Unidos, instalou os equipamentos, as linotipos e a impressora”, destaca Ari Cunha Filho.

Tudo por Brasília
“A história de Ari se funde com a do Correio Braziliense para a consolidação e desenvolvimento de Brasília, além da implantação de jornalismo de qualidade na capital”, enfatiza Álvaro Teixeira da Costa, diretor-presidente do Correio. O ex-presidente da República José Sarney, se recorda do amigo Ari pelo talento, inteligência e experiência profissional.

Sarney destaca a atuação de Ari “pautando a vida de Brasília”. “Fui seu amigo e companheiro dos Diários Associados, que hoje ainda permanecem vivos, através do Correio Braziliense. Tenho orgulho de ter sido seu contemporâneo. É uma perda que deixa um vácuo na história de nossa imprensa”, acrescenta.
Ari Filho destaca que o pai era um nordestino bravo, de personalidade muito forte. Mas, ao mesmo tempo, era uma pessoa muito doce, afável e terna: “Ele deixou mais amigos do que inimigos. Defender Brasília sempre foi o seu grande ideal. Queria o melhor para a cidade”.

Anos antes da saga brasiliense, Ari Cunha seguiu o destino que o levaria a ser um dos grandes jornalistas do seu tempo. Mudou-se de Fortaleza para o Rio de Janeiro, numa viagem de navio em terceira classe, aos 18 anos, em busca de uma chance profissional no mercado da então capital do país. Lá, ingressou no Bureau Interestadual de Imprensa e no International News Service. Durante muito tempo, escreveu crônica política para diversos jornais representados pelo escritório.

Com isso, teve a oportunidade de trabalhar na mesma bancada de imprensa de gente famosa como Carlos Lacerda, Joel Silveira, Heráclito Salles, Prudente de Moraes Neto e Irineu de Souza. Além disso, a cobertura do dia a dia da política propiciou o contato com políticos importantes, de João Mangabeira, passando por Luiz Viana Filho, Café Filho, José Bonifácio de Andrade, Israel Pinheiro e chegando a Juscelino Kubitschek, que lhe aguçaram a consciência e o sentimento dos problemas nacionais.
São Paulo foi a próxima parada. Uma transferência de “duas semanas”, para organizar a agência de notícias New Press, durou 10 anos. Depois se transferiu para a Última Hora, de Samuel Wainer, onde desenvolveu o conhecimento da parte técnica dos jornais. As inquietações da mocidade o levaram a perder o emprego. Ele resolveu pedir socorro ao amigo e conterrâneo Paulo Cabral que, na época, era o diretor-geral dos Diários Associados.

“Ele nos trouxe de São Paulo para Brasília em 1959”, lembra Ari Filho. “Sempre foi um exemplo de conduta, sempre nos proporcionou estudo, preparação para nos adaptarmos às mudanças do mundo”. A filha Circe complementa: “Era uma pessoa que cumprimentava desde a pessoa que estava limpando o chão até o presidente do lugar”.

O jornalista Kleber Sampaio era vizinho e amigo de Ari, além de ter trabalho ao lado do jornalista no Correio. Um fato importante da trajetória de Ari, segundo Kleber, foi a luta para impedir que a capital voltasse ao Rio de Janeiro. “A campanha teve consequências por aqui, as obras foram paralisadas e a cidade entrou em colapso financeiro. Milhares de trabalhadores foram demitidos da construção civil e todos temiam a transferência para a chamada, na época, Belacap. De sua coluna, Ari Cunha foi o principal combatente contra a campanha, mostrando que a capital era — de direito e de fato — Brasília. Ele dizia que o sonho de JK tinha de ser respeitado. Ari venceu e Brasília deve isso a ele. Daqui a 400 anos muitos ainda saberão desta história”, recorda.

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