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sábado, 9 de fevereiro de 2019

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Depois de vencer avalanche de lama, sobreviventes esperam por auxílio
Operadora de máquinas, Maria Aparecida conseguiu salvar a própria vida e as da filha e do marido, mas não tem trabalho nem onde morar
Brumadinho (MG) – Todos os dias, há quase 20 anos, Maria Aparecida dos Santos, 44 anos, operadora de máquinas em uma fazenda nas imediações do Córrego do Feijão, seguia a mesma rotina. Pouco antes do meio-dia fechava a casa de máquinas e ia para a sua residência, preparar o almoço da família.

No dia 25 de janeiro deste ano, Maria olhou o relógio e viu que faltavam 10 minutos para o meio-dia. Foi para casa, colocou as panelas no fogão e lavava algumas folhas para a salada quando ouviu um estrondo. O barulho, que para a mulher “parecia o fim do mundo”, mudou sua vida definitivamente e trouxe uma devastação de lama que varreu tudo o que ela um dia conquistou.

Enquanto arrumava o almoço, Maria Aparecida chamou a filha Ana Clara, de 9 anos, e pediu que a menina colocasse o telefone da mãe para carregar. “Ela colocou na mesinha do canto da sala e eu voltei para a cozinha. Ouvi um barulho estranho, uma ventania forte e o pontilhão do trem estalando. O trem eu sabia que não era porque não o via nos trilhos. Quando fixei o olhar, o pontilhão começou a desabar e veio tudo aquilo para cima dele”, lembra a moradora da área atingida pelo rompimento da Barragem I, da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG).
Em meio ao desespero, mas ainda com raciocínio rápido, Maria Aparecida chamou Ana Clara novamente. Pediu que a garota pegasse o celular e saísse para o quintal. Quando as duas já estavam no terreiro, a mãe pegou no braço da filha e disse: “Você precisa me ajudar. Vamos correr muito agora. Usa toda a sua força e não olha para trás”. Assim, as duas correram na frente da lama, pelo meio do mato, até chegar a uma estrada de terra que não foi atingida.
Telefonema salvou maridoDurante a fuga, a lama chegou aos seus joelhos de mãe e filha. Ainda assim, elas seguiram em frente. Maria Aparecida caiu no caminho, mas se levantou novamente e espiou, de relance, o caminho que deixara para trás. Via pessoas e coisas sendo arrastadas. Já seguras no alto da estrada, onde a lama não alcançava, a mulher ainda conseguiu ligar para o marido, que trabalhava em uma horta na mesma fazenda em que ela e a filha estavam: o avisou a tempo pra escapar, com os companheiros de lavoura, da enxurrada de lama.

Para a operadora de máquinas, o pior dia de sua vida foi também a data em que considera ter nascido de novo. Agora, fica o vazio de lembranças, memórias de toda uma vida que está soterrada pela lama da Vale.
Salvei as nossas vidas, mas perdi tudo. O que não consegui salvar foram meus bens e tudo que conquistei em 20 anos, mas exijo que eles me devolvam isso. Preciso montar um lar para a minha filha. Eles nos arrancaram nosso lar e isso não é culpa de nenhum de nós. Ficou tudo na lama"
Maria Aparecida dos Santos, sobrevivente da tragédia em Brumadinho.

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