sábado, 30 de novembro de 2019

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Jaqueline de Jesus: "Vim de uma família que valoriza muito os estudos. A minha mãe era professora, ela foi a primeira a entrar na universidade"(foto: Arquivo Pessoal)

Primeira trans a entrar para o doutorado na UnB narra sua trajetória
Jaqueline de Jesus foi a primeira transexual a entrar para o doutorado na Universidade de Brasília. Hoje, a ceilandense vive no Rio, onde é professora universitária. Engajada, ela ajudou na formulação das cotas raciais da UnB e é uma das organizadoras da Parada LGBT da cidade.
Uma mulher de sucesso. Assim pode ser definida Jaqueline Jesus. Aos 41 anos, a brasiliense tem um currículo extenso. O último título foi de pós-doutora pela Fundação Getulio Vargas e de pesquisadora do Centro de Políticas e Desigualdades em Saúde, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Além das conquistas, a psicóloga carrega a fuga de uma triste estatística. Jaqueline é transexual e negra. Cerca de 82% dos travestis e transgêneros não chegam a terminar nem a escola fundamental, de acordo com levantamento da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e apenas 34% dos estudantes de ensino superior são negros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
É tanto que ela foi a primeira transexual a terminar um doutorado pela Universidade de Brasília (UnB). Isso foi em 2010. Um dos grandes diferenciais dela? O apoio familiar. “Vim de uma família que valoriza muito os estudos. A minha mãe era professora, ela foi a primeira a entrar na universidade. Sempre tive acesso a livros. Depois que eu já era crescida, meu pai também fez faculdade”, conta.
E o apoio não foi no incentivo para ter uma carreira, mas também em aceitá-la como ela é. Jaqueline se assumiu como Jaqueline há pouco mais de 10 anos, quando estava no doutorado, outro fator que ela cita como facilitador. “Eu decidi, aos 29 anos, que me reconhecia como mulher trans e resolvi começar minha transição e viver como mulher. Tive muito apoio da minha família, bem diferente do que costuma ser”, recorda.
“Mesmo sendo uma pessoa negra que conseguiu lutar e ocupar meu espaço enquanto negra. Não sei se tivesse passado pela transição antes teria chegado à universidade. São vários fatores a serem avaliados”, destaca.
Carreira de sucesso
Dessa forma, a moradora da Ceilândia tomou como natural que fosse para a universidade. O primeiro curso escolhido foi química, para depois perceber que sua vocação estava na psicologia. Começou a militar por causas raciais e LGBTs na graduação, ainda em 1997. “Sempre quis associar minha pesquisa com a psicologia e a prática da militância.”
E ela conseguiu. No mestrado, iniciado assim que terminou a graduação, ela pesquisou como os libertadores de escravos enxergam a questão. Ao mesmo tempo, a jovem psicóloga foi convidada para ser assessora do vice-reitor da universidade à época, Timothy Mulholland, e ajudar na formulação das cotas raciais. A UnB foi pioneira na política. O ano era 2003, de lá para cá, quase oito mil negros ingressaram na instituição por meio da política pública. “Foi bem desafiador. A temática era questionada pela mídia e também pelo meio jurídico”, lembra.
Em 2006, ela entrou para o dourado. “Dessa vez, escolhi um tema mais político, que foi investigar as paradas do orgulho LGBT”, explica. O engajamento de Jaqueline a levou a fundar uma ONG de pesquisa ligada à sexualidade de gênero, ser eleita como presidente do Fórum LGBT do DF e do Entorno e ser uma das organizadoras da Parada LGBT de Brasília.
Mas não parou por aí, Jaqueline, então, partiu para o pós-doutorado. Por isso, resolveu sair de Brasília. Foi para o Rio de Janeiro com apoio da Fundação Getulio Vargas (FGV). No Rio, ela começou a atuar no núcleo de extensão da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) atendendo os moradores do Complexo da Maré e passou no concurso para ser professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), onde hoje dá aulas para os cursos ligados à economia criativa. “Ser professora está no meu sangue. Detesto usar esse clichê, mas apesar de suas limitações, ele facilita a compreensão do que eu quero dizer pelo fato de ser filha de professora. Sala de aula é um lugar que eu conheço desde antes de conhecer a mim mesma. Na cesta de vime em que minha mãe me levava, quando bebê, para assistir suas aulas no curso de pedagogia”, relata em de suas publicações nas redes sociais.
Uma marca triste
Jaqueline concorreu a deputada estadual do Rio nas últimas eleições. Ela e mais 32 mulheres negras resolveram fazer da candidatura uma homenagem a vereadora assassinada Marielle Franco. Dessas, três foram eleitas. “Foi uma experiência bem interessante, cansativa, mas rica. Foi possível observar como a política é extremamente focada na ideia do cândido homem, hétero, cisgênero, e como isso é prejudicial para a mulher de maneira geral”, explica.
A ativista recorda que foi escolhida por Marielle Franco para receber a medalha Chiquinha Gonzaga, uma honraria entregue a personalidades femininas que tenham se destacado em prol das causas democráticas, humanitárias, artísticas e culturais. “Fui a primeira mulher negra e trans a receber. Isso marcou muito. Eu estava com ela, em 8 de março de 2018, em um evento e, no dia 14, depois de um debate, ela foi executada. O que mostra a vulnerabilidade da mulher negra, favelada, LGBT. 
Ela ficou muito exposta. Já chegaram matando logo”, lamenta.
Publicações
Jaqueline fez de seu trabalho uma obra, e a intenção e os frutos podem ser vistos. Ela tem vários livros publicados e não para uma segundo, entre um evento e outro. A entrevista até teve que ser interrompida para Jaqueline partir para mais um lançamento de livro. Mas ela garante que tudo vale a pena. “Tem momentos de tristeza que ficamos desanimado com o mundo, mas buscamos nos fortalecer”, diz.
Jaqueline ainda lembra que ela é um exemplo para suas alunas e pessoas negras e trans. “O que é ser mulher trans negra depende de cada uma. Ser Jaqueline é ser uma mulher trans negra que acredita muito nas pessoas, acredita no poder do conhecimento. Só a educação que vai fortalecer as pessoas discriminadas. Eu luto por isso. Eu sigo lutando como professora para que a gente busque uma conscientização, para que nos colocamos no lugar do outro e entendermos que diversos somos todos”, afirma.
EspecialPara marcar o Mês da Consciência Negra, a série Histórias de consciência é publicada ao longo de novembro e presta homenagem a mulheres e homens negros que ajudam a construir uma Brasília justa, tolerante e plural. Todos os perfis deste especial e outras matérias sobre o tema podem ser lidos no site www.correiobraziliense.com.br/historiasdeconsciencia
Conheça algumas publicações da psicóloga e ativista
Transfeminismo: Teorias e prática
» Autora: Jaqueline Gomes de Jesus
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» Homofobia: Identificar e prevenir
» Autora: Jaqueline Gomes de Jesus
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» 111 páginas
O que é Racismo?
Autores: Jaqueline Gomes de Jesus, Paulo de Carvalho, Rosália Diogo, Paulo Granjo
Editora: Escolar
127 páginas
Leia mais no Correio Braziliense



Ainda que tardia: escravidão e liberdade no Brasil contemporâneo


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» Editora: Gramma Livraria e Editora
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» 128 páginas
» Travestis e prisões: Experiência social e mecanismos particulares de encarceramento no Brasil


» Autores: Guilherme Gomes Ferreira (Autor), Rapha Jacques (Ilustrador), Maria de Fátima Beghetto (Editor), Jaqueline Gomes de Jesus (Prólogo), Aline Kerber(Introdução), Eduardo Pazinato (Introdução)
» Editora: Multideia Editora
» R$ 15
» 195 páginas
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