quarta-feira, 27 de novembro de 2019

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Três a cada quatro desempregados do Distrito Federal são negros
Esta parcela da população é a que mais sofre com a falta de vagas, representando 75,6% dos que não têm trabalho no DF, segundo levantamento realizado pelo Executivo local. Em busca de soluções, muitos buscam renda na informalidade.
Falta trabalho e sobram desigualdades raciais. Essa é a síntese da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) divulgada nesta terça-feira (26/11) pela Secretaria do Trabalho, que mostra que 75,6% dos desempregados do Distrito Federal são negros. A falta de oportunidades também leva a outro problema: essa população tem menos acesso a direitos trabalhistas e previdenciários, pois acaba recorrendo a serviços informais, com menores salários. Na distribuição de ocupados, os autônomos negros são maioria, com 15%. 
No setor público, pessoas que se autointitulam brancas ou amarelas ocupam 29,6% dos cargos, enquanto os negros, somente 17,6%.
Negro e desempregado há 10 meses, André Baioff, 26 anos, avalia que a dificuldade começa cedo. “Nós fazemos mais parte da população pobre; então, não temos tanto acesso à educação. Precisamos estudar e trabalhar, mas competimos com quem teve privilégios, como escolas melhores, mais capacitações de cursos e intercâmbios. É uma meritocracia fajuta”, critica. 
O jovem buscou oportunidades, enviou currículos e fez entrevistas durante esse tempo, mas teve de recorrer a trabalhos temporários para garantir renda. “Isso é prejudicial de diferentes formas. Existem muitos negros socialmente próximos à criminalidade que precisam colocar a comida na mesa, comprar remédios para familiares e pagar as contas. Sem trabalho, ficam vulneráveis. Então, acho que dar suporte de emprego é ajudar a sociedade como um todo”, opina.
A pesquisa da Secretaria do Trabalho se une aos depoimentos de negros em situações de desigualdade. Essas ligações auxiliam a criação de políticas públicas, como acredita Juvenal Araújo, subsecretário de Direitos Humanos e Igualdade Racial, da Secretaria de Justiça e Cidadania. 
Para ele, é necessário pensar além para garantir mudanças. “Temos de eliminar o racismo estrutural; então, precisamos trabalhar em diversas frentes. Primeiro, é preciso observar que ele existe, que é crime e tem de ser combatido. Nós só resolveremos com ajuda de políticas públicas, como as que fazemos no DF. Um exemplo é que temos cotas em todo o serviço público do governo”, ressaltou.

Para Juvenal Araújo, governo deve trabalhar em diversas frentes, começando pela educação(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press).
Juvenal lembrou da juventude para citar um projeto que está próximo de ser implementado na capital.
“Quando eu era mais jovem, lembro que comecei a trabalhar como guarda-mirim. Hoje, estamos em fase final do projeto, que prevê 20% de vagas em estágios para negros no governo, e penso no tanto de pessoas que podem ser beneficiadas com o auxílio, começando a trabalhar em cargos com melhores salários e possibilidade de ascensão”, avaliou.
Outra questão debatida na divulgação da pesquisa foi a falta de representação política dos negros, como apontou o Secretário de Trabalho, João Pedro Ferraz. “Como temos cotas para as mulheres no parlamento, por que não para negros? Precisamos de políticas afirmativas de inclusão da nossa população. Os negros não podem ser tratados com ações voltadas para as minorias, porque não são. As pesquisas têm o objetivo de implementar essas mudanças”, comentou.
Mulheres
Outra informação preocupante do estudo se refere à taxa média de desemprego para as mulheres negras, que continua como a mais elevada. No primeiro semestre, o índice desse grupo foi de 23,1%, contra 22,6% do mesmo período de 2018. 
Quando comparados com a população não negra, os números de desocupação das negras também são mais altos, em todos os períodos analisados.
Bruna Ramos, 25, faz parte dessa análise. Graduada em design, ela procura trabalho há dois anos. “Até para quem tem nível superior é difícil; então, imagino (a dificuldade) para quem não concluiu o ensino médio. As mulheres ainda passam por questões como a preferência de empregadores por homens, pois nós engravidamos e ficamos mais tempo ausentes. Então, tive de me virar como pude, vendendo bombom, trabalhando on-line e com o que aparecia”, detalhou.
Na avaliação de Jean Lima, presidente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), a pesquisa expõe lacunas raciais, sociais e de gênero no mercado de trabalho. “O que mais chamou atenção foi a desigualdade de renda entre etnias, especialmente com as mulheres negras, que têm uma média salarial quase três vezes menor do que a média salarial do homem branco. Outro dado importante é a proporção do número de desempregados negros, de 75%, que é muito superior à proporção de negros na população do DF, de 57%”, finalizou Jean.
Perfil O estudo foi elaborado em conjunto pela Secretaria do Trabalho, pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e pela Secretaria de Justiça e Cidadania. 
Os dados levaram em conta a declaração de cor da população pesquisada.
Afroempreendedor A Secretaria de Justiça e Cidadania promove, mensalmente, evento voltado para produtores negros. A Feira do Afroempreendedor ocorre no Palácio do Buriti durante dois dias seguidos e conta com a venda de mercadorias e artesanatos feitos pela população negra do Distrito Federal. Em dezembro, ela está prevista para os dias 5 e 6.

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