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Igreja e estado: O que significa a ascensão evangélica no poder Executivo

Igreja e estado-- O que significa a ascensão evangélica no poder Executivo Por Italo Wolff                     Rogério Cruz (Republicanos-GO...

Igreja e estado-- O que significa a ascensão evangélica no poder Executivo
Por Italo Wolff

                    Rogério Cruz (Republicanos-GO), prefeito de Goiânia Goiás.

Prefeito de Goiânia Rogério Cruz é membro de igreja evangélica | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção Sociólogos e cientistas políticos debatem o fato de que políticos evangélicos ganharam representação nas prefeituras nas eleições de 2020.
 As eleições de 2020 foram marcadas pelo avanço de políticos evangélicos, já bem estabelecidos no poder Legislativo, agora também no Executivo. 
Em Goiás, as três maiores cidades (Goiânia, Aparecida e Anápolis) tiveram vice-prefeitos membros de igrejas evangélicas eleitos. 

No pleito municipal do ano passado, dos 311 candidatos às prefeituras de capitais, 67 (21,5%) expuseram sua identidade religiosa em nome de urna e, dentro do grupo dos que se identificaram desta forma, 39 eram evangélicos (58,2%), além de outros 14 vice-prefeitos evangélicos assumidos. As estatísticas são do Instituto de Estudos de Religião (ISER), publicadas pela revista Carta Capital. 
A autora do artigo, Magali Cunha, pontua que os evangélicos não são um bloco monolítico na política. 
Candidatos identificados como evangélicos em campanha não necessariamente têm o apoio do segmento como um bloco em suas cidades. Além disso, as igrejas que têm projetos de ocupação da arena política agem de acordo com projetos políticos distintos. 
Este mesmo fator se revelou nas entrevistas feitas pelo Jornal Opção com os vice-prefeitos evangélicos eleitos. Vilmar Mariano (MDB), vice em Aparecida de Goiânia, afirmou entender que seu nome foi escolhido na cidade por sua liderança pessoal, e não por sua agremiação religiosa. “Eu não fiz campanha na igreja. 
Não falo de política na igreja. Acredito que fui avaliado como cidadão”.
Vilmar Mariano 

Anápolis, o vice-prefeito se apresentou como Pastor Marcio Cândido (PP) nas urnas e disse ter sido incentivado a entrar na política por seus colegas de religião, mas disse ter sido escolhido independentemente de sua fé. “Há um forte crescimento do número de evangélicos no país. 
Como os evangélicos participam da sociedade, é natural que vejamos mais sua representação na política também”, afirmou Marcio Cândido. 
O Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstra um crescimento da religião evangélica. 
No último Censo, ainda de 2010, o Brasil era 64% composto por católicos e 22% por evangélicos (a proporção em Goiânia é maior do que a média nacional: 30% de evangélicos). Razões da ascensão evangélica Flávio Sofiati 
Foto: Reprodução / UFG

Flávio Sofiati é doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), que tem como área de atuação a Sociologia da Religião. 
Ele afirmou: “A presença desse grupo na política tem sido uma constante crescente desde os anos 1980. 
Evangélicos participaram na Constituinte de 1988 com uma pequena bancada, que cresceu nos anos 90 e 2000. Em 2018, pela primeira vez, esse setor tem presença significativa no governo federal com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 
As eleições de 2020 evidenciam o fenômeno histórico que podemos notar nas décadas passadas.” Pedro Mundim é professor de Ciência Política da Faculdade de Ciências Sociais da UFG e pesquisa eleições e comportamento político. 
Segundo o cientista político, um bom preditor do comportamento futuro dos eleitores é o sistema de crenças que indivíduos possuem. 
Da mesma forma que pessoas com ideologias específicas tendem a seguir os candidatos do seu espectro ideológico, a dimensão religiosa também participa da tomada de decisão eleitoral. 
Com o crescimento deste segmento da população, há um forte recompensador eleitoral para candidatos que se identificam como religiosos.
 “Corporações religiosas se embrenham em disputas políticas para eleger bancadas vinculadas a si”, disse Pedro Mundim. “Podemos especular sobre as origens deste projeto político, mas a motivação é clara: ter poder de negociação de sua agenda. 

Para este grupo é importante barrar ações progressistas, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o aborto, a legalização das drogas, entre outras. 
É a visão de mundo deles. Quanto maior a bancada têm, maior o poder de barganha”. Robinson Almeida é doutorando em Sociologia e estuda o comportamento e teoria política. 

Segundo Robinson Almeida, as razões para a ascensão desse grupo religioso estão ligadas ao momento político. A onda conservadora que culminou na eleição de Jair Bolsonaro tem raízes no anti-esquerdismo, que por sua vez originou-se dos escândalos de corrupção associados ao PT, da conjuntura econômica desfavorável, da inabilidade de Dilma Rousseff (PT) para formar alianças políticas, e da pauta de costumes tradicionalistas, que calha de ser cara a grupos evangélicos (embora haja as exceções dos evangélicos progressistas, ressaltou Robinson Almeida). 
Entretanto, as razões que justificam o crescimento passado dos evangélicos na política não são necessariamente preditoras de seu sucesso no futuro, conforme afirmou Pedro Mundim. “Uma das estratégias que os evangélicos utilizam é vincular as bandeiras de suas igrejas a si mesmos para atrair eleitores. Mas quando há muitos candidatos religiosos, isso deixa de ser um fator que os diferencia dos demais e outras questões passam a importar”.
                            Pedro Santos Mundim | Foto: Reprodução / UFG Fato novo.

Templo de Salomão: a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus | Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas


Robinson Almeida questionou o conceito de políticos evangélicos como uma categoria à parte dos políticos agrupados por ideologias seculares. “Tendo a ver esse grupo religioso como um setor que tem legitimidade para buscar seu espaço na política e para buscar a realização de seus valores, como outros setores também têm. 

Não há uma barreira entre vida privada e vida política, a religião não fica restrita à esfera individual das pessoas. 
Essa é uma separação artificial. Todos têm seus valores morais, culturais e visões de mundo; e todos desejam a universalização desses valores para toda a sociedade”. 
Segundo o sociólogo, a discussão sobre a laicidade do estado não deve ser posta em termos da exclusão de valores religiosos da vida pública. Ao contrário, deveríamos entender que a laicidade é a não adesão do estado por uma única e pré-definida visão religiosa. “Mas o estado não deixa de ser laico pelo fato de que setores religiosos elegem membros que representam as visões dessas pessoas. Isso é aceitável e corresponde ao pluralismo esperado. 
Não é diferente de outros grupos minoritários, como os grupos feministas, ou LGBTQIA +, ou socialistas, ou liberais”, afirmou Robinson Almeida. 
“O período de crescimento dos evangélicos no Legislativo não redundou em políticas públicas voltadas especificamente para este setor.” Flávio Sofiati concordou que não há fatores no crescimento da representação evangélica que apontem para uma ameaça à laicidade do estado. 
O sociólogo lembrou ainda que o estado laico brasileiro sempre foi majoritariamente representado por católicos, e que religiões de matrizes africanas sempre foram discriminadas dentro e fora das instituições. Portanto. 
“Como cidadãos, nosso papel é ser críticos às formas como um grupo pode interferir na luta por direitos de outros grupos”, disse Flávio Sofiati. 
“O termo ‘Estado laico’ significa que o Estado deve ter equilíbrio e garantir os direitos de todos”.


Fonte: Jornal Opção de Goiás 

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