quinta-feira, 7 de novembro de 2019

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O filho de Bolsonaro e a filha de Ronnie Lessa escaparam por pouco do JN
Ainda bem que o porteiro não soube das conversas telefônicas entre Renan e a namorada
Ainda bem que o porteiro do condomínio onde têm residência as famílias de Jair Bolsonaro e de Ronnie Lessa não soube de um fato cuja veracidade pode ser comprovada pelo resgate de duas contas telefônicas. Há algum tempo, ocorreram todos os dias, semanas a fio, várias ligações entre a casa 58, pertencente ao deputado federal que se elegeria presidente da República, e a de número 65, onde morava o ex-policial militar recolhido à cadeia sob a acusação de participar do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.


Renan Bolsonaro, com o pai, namoro com a filha do vizinhoAlan Santos/Presidência
Ao receber tal informação, bateu-me a tentação de fazê-los chegar a Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Globo. "Sigam os telefonemas", aconselharia. É certo que o Jornal Nacional noticiaria ao som de tambores e clarins a revelação medonha. Lido com voz cava pelo apresentador, o texto lembraria que ninguém conversa tanto para trocar receitas culinárias, ou comentar a temperatura do dia. Ali tinha. Na mais branda das hipóteses, a descoberta atestaria que dois suspeitos profissionais eram unidos por laços de amizade que garantem a cumplicidade indissolúvel.
Só depois de terminado o JN eu completaria a história com o detalhe que nenhum repórter se dera ao trabalho de procurar: os telefonemas só provavam que foi longo e intenso o namoro entre Renan Bolsonaro, quarto filho do presidente, e uma filha de Ronnie Lessa. Quando não estavam juntos, os dois jovens matavam a saudade recorrendo à invenção de Graham Bell. Simples assim. O problema é que, para caçadores de segredos capazes de derrubar qualquer governo, a verdade singela é menos que nada. Muito mais excitante é a mentira ruidosa.
Imaginemos que o astronauta Neil Armstrong morasse num condomínio onde também tinham casas alguns mafiosos da Flórida. O porteiro do lugar, sabe-se lá por quê, resolve dizer à polícia que amigos dos mafiosos apareceram por lá à procura de Armstrong no mesmo dia em que o mundo inteiro testemunhava seu pouso na Lua. Segundo o depoente, era a voz do "seu Neil" no interfone. Qual é a notícia? Nenhuma. Zero. Porteiro maluco não é notícia sequer em jornal de condomínio.
Pense agora no que aconteceria se o Miami Herald, em 1969, fosse dirigido por alguém que odiava Armstrong e acreditava que reportagem é um ajuntamento de verdades, mentiras, especulações e perguntas sem resposta, Nessa hipótese, a manchete decerto reproduziria a invencionice do porteiro. E o editorial exigiria rigorosas investigações sobre a real identidade do primeiro homem a pisar na Lua. Aquele astronauta encoberto pelo traje e pelo capacete poderia ser outro. "Seu Neil" talvez tivesse ficado por aqui, recepcionando amigos de vizinhos mafiosos.
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